Cachaça: um patrimônio que pede espaço
O crescimento dos alambiques paranaenses mostra que tradição, qualidade e inovação podem transformar um produto genuinamente brasileiro em uma cadeia econômica de maior valor
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
O crescimento dos alambiques paranaenses mostra que tradição, qualidade e inovação podem transformar um produto genuinamente brasileiro em uma cadeia econômica de maior valor
Folha de Londrina 
Ganha força, no Paraná, um movimento para transformar a cachaça, de uma bebida popular, em um produto altamente rentável e representante da identidade brasileira. Prova dessa dinâmica do setor é que o número de estabelecimentos produtores paranaenses registrados no Mapa (Ministério da Agricultura) saltou de 43 para 74 em apenas um ano, um crescimento de 72%. São 406 produtos e 553 marcas que ajudam a revelar a diversidade e o potencial de uma cadeia produtiva ainda longe de atingir sua maturidade.
Os números estão reunidos no Anuário da Cachaça 2026 e tomam como referência o ano de 2025. O documento aponta avanço da atividade produtora da bebida em território paranaense. Em 2024, eram 43 estabelecimentos e o Estado ocupava a nona colocação no ranking brasileiro.
Atualmente, dos 399 municípios paranaenses, 45 contam com pelo menos uma unidade produtora registrada no Mapa, o que corresponde a mais de 11% do total. Em todo o país, são 11.131 marcas, número que cresceu 16,8% na comparação com 2024.
Conforme a publicação, esse produto genuinamente nacional tem ganhado relevância na cadeia produtiva de bebidas do país e o crescimento observado no período analisado é um demonstrativo do potencial de expansão desse setor. Desde o início da série histórica, o número de estabelecimentos registrados saltou de 951, em 2018, para 1.538 estabelecimentos elaboradores de cachaça registrados no Brasil, alta de 61,72%. Sobre 2024, o avanço foi de 21,48%. O ano passado foi o de maior crescimento relativo e absoluto no período estudado.
O dado é expressivo, mas não deve ser analisado apenas como uma estatística de crescimento. Por trás de cada alambique há conhecimento transmitido entre gerações, emprego, renda, agricultura, turismo e, em muitos casos, uma relação profunda com o território. A história da cachaça em Morretes, por exemplo, remonta ao início do século 18. A Indicação Geográfica conquistada em 2023 reconhece justamente aquilo que a industrialização em larga escala não consegue reproduzir: a identidade de um produto associado ao lugar onde é feito.
O mesmo princípio aparece no Vale do Ivaí e em outras regiões paranaenses. Pequenos e médios produtores apostam em processos artesanais, envelhecimento, novos rótulos e controle rigoroso da qualidade para disputar um consumidor disposto a pagar mais por uma bebida diferenciada. É uma estratégia que aproxima a cachaça do conceito de produto de valor agregado e abre possibilidades para o turismo rural, gastronômico e de experiência.
O cenário reforça a importância de políticas que não se limitem à formalização, mas criem condições para que os empreendimentos sejam economicamente sustentáveis.
A tributação é uma das questões que precisam entrar nessa discussão. A elevada carga de impostos e a falta de isonomia apontada pelo setor podem comprometer especialmente os pequenos produtores, justamente aqueles que preservam técnicas artesanais e agregam identidade ao produto.
Também é preciso aproximar produtores, universidades, instituições de pesquisa, governos e entidades do setor para investir em tecnologia, qualificação, promoção comercial e acesso a novos mercados. É necessário ainda fortalecer as indicações geográficas e a valorização dos produtos regionais, criando uma narrativa capaz de apresentar a cachaça não como uma bebida de menor prestígio, mas como um destilado brasileiro de qualidade e identidade próprias.
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