Nesta semana o governo perdeu a votação da contribuição previdenciária graças, inclusive, à atitude dos deputados da coalizão, que mais uma vez revelaram a arraigada tendência casuística, o oportunismo crônico que é sabidamente a tônica maior do Congresso, e que sempre vem acompanhada do indefectível populismo que reflete a mentalidade clientelista, paternalista e imediatista dos nossos políticos de maneira geral.
A estes deputados, como aliás à maioria de seus pares, interessa apenas mais poder, traduzido em termos de cargos e benefícios particulares, sendo que o povo, para o qual os atuais eleitos imploraram votos durante a campanha, agora não é mais cogitado, pouco importando a sorte da Nação desde que os senhores parlamentares obtenham os favores que desejam e estejam bem com uma parte do eleitorado.
A deslealdade - e, porque não, a traição - destes deputados aos compromissos assumidos anteriormente, demonstra mais uma vez a necessidade de uma revisão da legislação eleitoral para que seja incluída a figura da fidelidade partidária. Sem esta revisão continuará a mudança constante de partidos, e de atitudes e comportamentos por parte de políticos guiados apenas por suas conveniências de momento e não por convicções ou ideologias como deveria ser.
Por sua vez, a imprensa, sobretudo a televisiva, cujo impacto sobre o público é imediato, demonstrou através de alguns jornalistas que atuam em noticiários a satisfação com a derrota governamental. Manifestações de júbilo estavam estampadas nos rostos de algumas estrelas do jornalismo nacional, e um comentarista chegou a dizer que a votação ‘‘serviu para quebrar a arrogância do governo’’.
Tal comentário medíocre e revanchista, significa apenas que o comentarista e seus sorridentes colegas não entendem nada de política econômica. Por outro lado, esta atitude da imprensa traduz visivelmente, como a ponta do iceberg, o espírito da oposição que no Congresso, além da habitual marca oportunista que permeia toda a instituição, vota um projeto não por ser este importante para o País, mas porque perdeu a última eleição presidencial, sendo portanto automaticamente contra o governo. É o voto do contra.
Evidentemente, a derrota significa também o enfraquecimento momentâneo porque passa o governo por causa do escândalo dos grampos e dossiês que, se nada foi provado de forma efetiva, acabou por provocar a demissão de importantes auxiliares do presidente. Essa fragilidade circunstancial, sem dúvida, açulou ainda mais o apetite dos caçadores do poder instalados no Congresso, e demonstrou mais uma vez o funcionamento de uma lei da natureza, que no reino animal ainda é mais visível. Basta ver um desses documentários sobre vida animal para se perceber que o bicho que cai ferido é imediatamente dizimado por vários tipos de predadores, que imediatamente o cercam para acabar de matá-lo e, depois, dele se alimentam.
Na sociedade humana isto também acontece de uma outra maneira, é claro, e com outro grau de sofisticação, o que não deixa de ser uma repetição em nível diferenciado do que ocorre com todas as espécies, que por um motivo ou por outro enfraquecem, ou seja, deixam de ter um determinado tipo de poder, seja este traduzido na capacidade de um animal caçar o outro, ou de um homem ter ou não algum tipo de prestígio econômico ou político que lhe possibilite o domínio sobre seus semelhantes.
Em todo caso, os jubilosos jornalistas e os congressistas que derrotaram o governo parecem ainda não se ter dado conta das consequências que poderão advir da votação saudada com tanta euforia. Ou, talvez, sejam todos partidários do ‘‘quanto pior melhor’’. Mas o fato é que o resultado para o País sinaliza no sentido de mais atraso na redução da taxa de juros, mais desemprego e, portanto, mais recessão.
Segundo o editorial da ‘‘Folha de S.Paulo’’ de ontem, ‘‘a derrota política reduz a eficiência da política econômica. Aumentar os custos do ajuste, tanto sociais quanto para as empresas, pode abalar a confiança de que o governo precisa para levar adiante o ajuste fiscal. Talvez seja o mais grave momento vivido pelo Plano Real’’.
Corre, pois, perigo, a estabilidade econômica obtida no Brasil a duras penas. E se isto pode aquecer o coração dos saudosos da inflação e alegar os caçadores do poder que pululam no Congresso, por outro lado sinaliza com o enorme sacrifício de todo povo e uma nova época de incertezas.
Acrescente-se, ainda, que o abalo provocado pela votação pode provocar dificuldades ao retorno dos financiamentos estrangeiros, assim como de novos negócios. Ao mesmo tempo, a derrota do governo na Câmara poderá, segundo Marcelo Diego, da ‘‘Folha de S.Paulo’’, ‘‘dificultar o desembolso das futuras parcelas do empréstimo do FMI ao Brasil’’.
Tudo isso faz relembrar o que disse Simón Bolívar em 1830, e que pode ser aplicado ao Brasil: ‘‘Se acontecesse que uma parte do mundo voltasse ao caos primitivo, isso seria a última metamorfose da América Latina’’.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina

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