A agroecologia emerge de um diálogo de saberes solidários e indica um novo relacionamento com a terra e a natureza neste início de século. Envolver-se com o assunto é perceber de imediato que existem racionalidades que apontam para caminhos divergentes. Uma delas vem atrelada à ideia de modernidade e acabou se tornando uma jornada inconclusa, revelando para a humanidade, um lado obscuro e colocando em risco a presença humana no planeta. Um dos sintomas dessa racionalidade é o surgimento de novas "pragas" na
agricultura que costumam desafiar o cabedal científico disponível. Agora parece ser a vez da "Helicoverpa armigera".
As práticas, consideradas racionais continuam poderosas e em rotas de colisão com os projetos alternativos que pretendem elevar ao máximo a sustentabilidade da "teia da vida". Na visão de Fritjov Capra, "o grande desafio do século 21 é da mudança de sistema de valores que estão por trás da economia global, de modo a torná-lo compatível com as exigências da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica".
Num tempo de travessias vive-se ainda sob a égide da "utopia do caçador", metáfora sugerida pelo sociólogo Zygmunt Bauman. Na visão de Bauman, o caçador contemporâneo é considerado sinônimo de predador, e não se refere às práticas ancestrais de caçada relacionada à sobrevivência de grupos de pessoas. O caçador de Bauman vive nos tempos líquidos e tem pouco compromisso com as questões ambientais.
A racionalidade do caçador dificilmente leva em conta a finitude do ambiente onde realiza suas caçadas. O projeto do caçador é sempre imediato.
O caçador não dá a menor importância ao equilíbrio geral das coisas, seja ele natural ou planejado e maquinado. A única tarefa que os caçadores buscam é outra "matança", suficientemente grande para encherem totalmente suas bolsas. Com certeza, não consideram seu dever assegurar que o suprimento de animais que habitam a floresta seja recomposto depois de sua caçada. Se os bosques desaparecerem e se tornarem impróprios para caçada, o
caçador não verá isso como uma preocupação imediata e como sendo sua.
O caçador estabelece a lei da vantagem e impele todos a serem caçadores sob pena de serem expulsos ou excluídos da caçada.
Numa vida de caça contínua, caçar acaba se tornando uma utopia bizarra, pois, diferentemente das antigas utopias, em que havia a promessa de que a labuta teria um fim, uma situação sustentável e de equilíbrio, a utopia dos caçadores é o sonho de uma labuta interminável. Diferentemente de outras utopias (que apontavam para o fim da estrada), para os caçadores é a própria estrada com fim incerto. Diferentemente das utopias de outrora, a utopia dos caçadores já não oferece um significado para a vida.
A prática da agroecologia busca um relacionamento não agressivo com a natureza. E, nesse sentido, vale destacar uma ironia relacionada aos cultivos transgênicos. Constata-se que, para viabilizar estes cultivos, considerados mais científicos, são sugeridas áreas de refúgio para melhor viabilizar a tecnologia. As áreas de refúgio devem ser formadas por cultivos convencionais, mas em conexão estratégica com a área de cultivo com maior grau de cientificidade. Sem as áreas de refúgio, procedimento que
infelizmente em muitos casos não está sendo observado, o "avanço
científico" fica comprometido. Em resumo, o refúgio é necessário para que o controle de insetos que ocasionam danos à agricultura seja mais eficiente.
Numa atitude paradoxal, a racionalidade dos pacotes exige que a natureza seja minimamente preservada para que as novas tecnologias possam ser viabilizadas. Quando isso não acontece, materializa-se o tiro no próprio pé.

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