A situação do presidente norte-americano Bill Clinton complica-se cada vez mais. O chefe de Estado mais poderoso do planeta tornou-se humilde especialista em pedir desculpas. Afinal, ele é culpado de quê, se não comprometeu a segurança nacional, não arrasou a economia ou ficou milionário às custas do cargo? Para conservadores republicanos, puritanos de carteirinha e hipócritas assumidos, ele praticou um pecado tão horrível, um crime tão hediondo, uma heresia tão grande que deve ser despejado da Casa Branca e engrossar o rol dos desempregados.
Mas para a maioria dos americanos de bom senso ele cometeu um erro, um pecadilho. Enfim, fez algo que só interessa a ele e a Dona Hillary. A primeira-dama, sim, foi traída, vítima de adultério. Mas, como convém ao bom cristão, perdoou. Algo que o chefe da igreja frequentada pelo casal esqueceu de fazer.
Quando os interesses de meia dúzia de pessoas se sobrepõem aos de um país com mais de 200 milhões de habitantes, há alguma coisa errada. O promotor Kenneth Starr, em nome da moral e dos bons costumes, teceu uma rede tão bem armada que o presidente, mesmo com todo o seu jogo de cintura, não conseguiu se desvencilhar.
Clinton teve que se humilhar publicamente. Teve que admitir que mentiu. Que enganou a primeira-dama e o resto da sociedade. Mas por que fez isso? Porque, ao depor em janeiro, no caso Paula Jones, ele disse não ter tido qualquer tipo de relação imprópria com Monica Lewinsky, ao ser perguntado sobre o affair com a ex-estagiária da Casa Branca. O presidente, apenas, não quis revelar o que fez, em meio a quatro paredes, com a jovem.
É esse o prato servido aos americanos pelo promotor independente, apoiado pelo Partido Republicano, como sendo suficiente para alimentar um processo de impeachment. A entrega do tal relatório justamente agora pode não ser mera coincidência. Faltam menos de dois meses para as eleições parlamentares, fundamentais aos republicanos, interessados em manter a maioria no Congresso.
Não fosse isso, talvez uma minoria de democratas não desse as costas ao presidente. Mas ninguém parece interessado em pôr em risco a manutenção de sua cadeira no Capitólio. O fantasma de perder votos por apoiar, ou mesmo perdoar, um chefe de Estado incapaz de controlar sua libido pode, ao ver de alguns candidatos, comprometer uma eleição. O endeusado ex-presidente John Kennedy fez o mesmo que Clinton, mas, ao morrer como herói, seus casos ficaram para segundo, terceiro plano.
Tudo o que o chefe da Casa Branca fez no governo e lhe garantiu o direito a mais um mandato pode ser jogado pelo ralo. Não importa, na opinião de uma minoria, o que William Jefferson Clinton tenha feito como dirigente dos Estados Unidos da América durante os últimos cinco anos.
Se o Congresso decidir tirar o presidente do cargo por tão pouco, deve também mandar uma mensagem ao Papa pedindo a canonização dos ex-chefes de Estado que passaram incólumes à Justiça política. Por isso, a tese de moção de censura, uma espécie de advertência, um puxão de orelhas, esteja sendo apresentada como mais plausível que a destituição de Clinton.
- CLÁUDIO CAXITO é jornalista em Brasília

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