CABE NO BOLSO? - Brasileiros estão aprendendo a planejar e poupar
Contas e mais contas para pagar. São faturas de água, luz, telefonia e impostos, além de gastos com alimentação, saúde, educação e lazer. Para ''encaixar'' tudo no orçamento sem se comprometer com dívidas, é preciso planejar e eliminar desperdícios. No entanto, muitas vezes, não é isso o que acontece.
Charles Vezozzo, professor da PUCPR em Londrina e consultor financeiro, explica que o brasileiro não tem o hábito de planejar e poupar por uma questão cultural. ''Muitas pessoas gastam mais do que ganham, endividando-se para manter um status que não tem'', atesta, ressaltando que os pais devem ensinar, desde cedo, os filhos a administrarem seu dinheiro.
Como o brasileiro lida com as finanças pessoais?
Temos mais o hábito de consumir do que o de poupar. A cultura do poupar está se desenvolvendo no Brasil, mas ainda há uma longa trajetória. Acredito que o caminho da riqueza consiste no hábito de poupar e não no de cortar custos. Algumas pesquisas revelam que a pessoa lida com o dinheiro como ela é. Por exemplo, quem tem um temperamento mais explosivo, às vezes, trata o dinheiro de uma maneira menos organizada.
Na sua opinião, por que o povo brasileiro não tem o hábito de poupar?
É uma questão cultural e de colonização. Por exemplo, o americano desde a adolescência aprende a poupar e a investir. Outra explicação é a mentalidade inflacionária. Muita gente deixa de planejar e poupar por causa da inflação.
Planejar é o melhor caminho?
A cultura de planejar as finanças pessoais tem a ver com o poupar. Existe uma pesquisa do IBGE que mostra que apenas 13% dos brasileiros chega até o último dia do mês com o salário. Tem gente que não consegue poupar porque ganha pouco, mas existe quem ganha menos e que além de poupar tem casa e carro. O hábito de poupar depende de um conjunto de crenças, comportamentos e temperamentos. Além disso, deve-se considerar o ambiente macroeconômico. Porém, as pessoas estão poupando mais.
As pessoas estão mais cautelosas em razão da crise?
Com certeza. Elas estão mais preocupadas. Percebo que gastam menos em situações de crise e diante de notícias ruins. E isso força a planejar mais. O medo, de certa forma, nos permite tomar certas iniciativas, que nos protegem de problemas maiores. Talvez esse seja um aspecto bom da crise, que fez as pessoas pensarem e planejarem mais.
Qual é a melhor forma de administrar as finanças pessoais?
É importante trabalhar com o dinheiro como nosso aliado. As pessoas não devem usar o sistema de compensação, alegando que merecem gastar pois trabalham bastante. Normalmente a renda ''vaza'' nessas situações. O ideal é que a pessoa tenha uma reserva de quatro a seis meses, pois se ela ficar desempregada é esse o tempo que demora para recolocação. Uma sugestão de poupança é guardar cerca de 10% do que se ganha. Se não for possível, a pessoa deve guardar o que pode. O ditado que ''de grão em grão a galinha enche o papo'' é verdade.
O que a pessoa deve fazer para não gastar mais do que pode?
O consumismo funciona como a dependência química e o alcoolismo. É preciso tratá-lo. No momento de fazer compras é importante pensar nos três ''P'': se eu preciso daquilo, se posso pagar e porque estou comprando. Dessa forma, dificilmente a pessoa vai comprar alguma coisa que não precisa.
Como educar os filhos para aprenderem a administrar bem as finanças?
Os pais devem estipular um valor de mesada que cubra as necessidades básicas e proporcione algumas atividades de lazer. Se o dinheiro acabar, os pais não devem dar mais. O que pode acontecer é um adiantamento. Dessa forma, o filho entende que suas necessidades têm que caber no bolso, e não vai se tornar uma pessoa que gasta mais do que ganha. Muita gente se endivida para manter um status que não pode.





