Bush e o dalai-lama
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segunda-feira, 15 de outubro de 2001
Petrucio Chalegre 
Repentinamente o mundo parece haver se dividido em dois tipos de pessoas. As que defendem o direito de um país reagir a ataques ao seu território, constante na carta da ONU, e as que entendem que a violência não pode ser a cura para a violência. Este artigo pretende demonstrar que ambas estão certas.
O primeiro grupo é representado pelo presidente americano. Ele presume que para que cessem os ataques terroristas é preciso destruir os meios que os sustentam. Estes esteios são os seus líderes, os seus recursos financeiros, os territórios que lhes dão guarida. O exemplo atual é a estrutura territorial do Afeganistão, Osama bin Laden e os financiadores de seu grupo.
O segundo grupo, que assume uma aparência enganosamente ingênua, é representado pelo dalai-lama, e sua postura frente à violência perpetrada pela China comunista contra o povo, a cultura, e o país tibetano. Apenas para recordar, a China deixou de pé, dos 6 mil templos tibetanos, apenas oito, matou aproximadamente 1,5 milhão de tibetanos, invadiu o país com tantos chineses que hoje os tibetanos são etnia minoritária em seu próprio território. Ocorre que sob a liderança do dalai-lama praticamente não houve guerra contra os chineses, não foram registrados atos terroristas. Apenas uma longa peregrinação mundial, um divulgar das idéias pacifistas, e nada mais.
O resultado para o Tibet foi o seu fim, pelo menos temporário, como país. Ocorre que o tempo para o dalai-lama tem um significado budista, não é importante o que sucede agora, ele pode esperar que sua doutrina se espalhe pelo planeta e dê seus frutos. Aparentemente é um ingênuo, na realidade é um estrategista de longo prazo. Muitos que pregam a paz hoje, pensam que seria possível uma vitória sobre o terrorismo pela não-violência, sim, seria, mas em séculos, nunca em décadas. Estes são realmente os ingênuos eco-românticos.
O problema para Bush é que ele não tem o tempo do dalai- lama. Não pode esperar por uma vitória como a que o cristianismo colheu sobre o império romano, o imperador Constantino se converteu em Roma 300 anos depois de Cristo morrer. O problema de Bush é imediato: ou derrota os terroristas onde quer que estejam, e pelos meios disponíveis, ou seu povo se encolherá com medo permanente. Ele pensa em segurança, e seu tempo é o agora.
Por esta razão ambos estão certos. Nos termos temporais de uma nação não há alternativa senão usar de violência, embora esta alimente uma espiral sem fim de retaliações durante muito tempo. O paradigma envolvido é o de superar a força do adversário, não de converter suas mentes à novos pensamentos.
Nos termos do dalai-lama uma nação não tem um significado permanente, seu paradigma é o modo de pensar. Seu povo e país podem ser destruídos, desde que suas idéias sobrevivam e sua recusa à violência venha a conquistar a própria China por dentro, convertendo o opressor. Isto já sucedeu três vezes na história da China, o budismo já foi destruído e ressurgiu das cinzas como uma fênix, a cada ocasião.
Aqueles que clamam pela paz e pela não reação precisam entender que a consequência é a dominação, como aconteceu no Tibet, a disposição de não reagir implica em submeter-se, o conceito de Estado-nação não sobrevive a isto. Do outro lado, os que clamam pela destruição do inimigo devem compreender que toda a força e ódio restará armazenada, ressurgindo periodicamente e assombrando os vencedores.
Este o dilema, você pode escolher, reagir às agressões, como Bush, ou quando alguém destruir suas propriedades, ou matar seus parentes, optar por apenas pregar a compaixão e perdoá-lo sem reagir, pensando no longo prazo como o dalai- lama. Antes de pregar em público, examine sua opção pessoal.
- PETRUCIO CHALEGRE é consultor de empresas em Porto Alegre
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