Burritzia e subservientzia
Rubem Azevedo LimaUm dos fenômenos mais espantosos ocorridos no Brasil, após a posse de Fernando Henrique Cardoso na Presidência, há quatro anos e sete meses, foi o enorme crescimento da dívida interna brasileira nesse período. Como herança de governos anteriores, FHC recebera a dívida de R$ 65 bilhões, em 1º de janeiro de 1995. Desse dia em diante, até hoje, tal dívida elevou-se a R$ 470 bilhões. Feito, pois, o desconto do montante herdado, o endividamento brasileiro, sob o atual governo, foi de R$ 405 bilhões, ou seja, de R$ 2,448 milhões por dia.
Ascenso Ferreira indaga, num de seus poemas, por que o gaúcho, nas coxilhas, dispara no lombo de seu cavalo. Se repetirmos a pergunta do poeta, quanto ao crescimento da dívida, chegaremos à mesma resposta que ele deu, naquele caso: ‘‘Para nada!’’. Pois nada, absolutamente nada se fez no plano social, com os bilhões do disparo diário dessa dívida. O número de brasileiros abaixo da linha de miséria, que diminuíra na fase boa do Plano Real, voltou a crescer e passa hoje de 45 milhões de pessoas.
Não se fizeram, no governo FHC, até agora, grandes obras com recursos públicos. Além disso, a pretexto de cortar gastos com investimentos do Estado, o Brasil vendeu a preços baixos – que totalizaram só US$ 75 bilhões – grande parte de seus ativos físicos. Eram bens que proporcionavam ao erário, anualmente, mais de US$ 10 bilhões.
O que, então, causou tamanho aumento da dívida interna brasileira? O economista e deputado Eliseu Rezende tem uma explicação plausível para o fenômeno, que começou a delinear-se em 1993, quando FHC era ministro da Fazenda de Itamar Franco e nossa dívida interna era de US$ 35 bilhões.
Na ocasião, Rezende propôs a venda de 30% de ações dos ativos das estatais, à época estimadas em US$ 150 bilhões. Com esse dinheiro, sem vender o patrimônio estatal nem perder o controle de suas empresas, o Brasil eliminaria toda a dívida interna e o Tesouro ainda embolsaria mais de US$ 10 bilhões.
O então ministro opôs-se ao plano de Rezende, alegando que Itamar era contrário à alienação dos bens públicos. A dívida interna chegou a US$ 65 bilhões e FHC, eleito presidente, começou a vender as estatais, pagando juros anuais de 100% aos credores daquela dívida, ao longo do seu mandato. Além disso, incorporou às dívidas da União as dos Estados e municípios, no total de US$ 150 bilhões. Outros US$ 80 bilhões de endividamento resultaram da incorporação do que Rezende chama de ‘‘esqueletos’’, as empresas estatais quebradas, como a Sunaman, o BNH, a Siderbrás e outras.
Sem falar do Proer e outros favores, são esses os motivos do estouro da dívida interna, que, algum dia, será paga à custa do sofrimento do povo. Rezende não fala das razões do governo para incorporar as dívidas estaduais e municipais. Mas é razoável supor que o país pagou esse preço para que o presidente postulasse a reeleição e trocasse, depois, sua promessa de emprego pelo desemprego voluntário. US$ 150 bilhões!
O professor José Carlos Azevedo responsabiliza a ‘‘burritzia’’ das novas elites no poder pelo descalabro geral do ensino, que trava o desenvolvimento nacional. Mas, sob o antônimo de ‘‘inteligentzia’’, feliz criação do ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB), outros neologismos também explicam a crise brasileira: o temor à ‘‘pesporrentzia’’ interna ou externa e a ‘‘subservientzia’’ dos que usam o poder contra o interesse público.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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