O deputado José Genoíno (PT/SP) anda agora pregando a cruzada da união dos partidos que se consideram ‘‘progressistas’’ no congresso para enfrentar a maioria governista, que caminha para uma perigosa unanimidade. Na quinta-feira foi formalizado na Câmara um bloco com 84 deputados das bancadas dos três maiores partidos de esquerda, PT, PDT e PC do B. O bloco dá direito à oposição indicar os presidentes de três comissões técnicas permanentes - o que não é muito, mas chega a constituir um alento.
Para convencer ‘‘os homens de pouca f钒, que, apoiados na experiência histórica, constumam ironizar, dizendo que ‘‘a esquerda só consegue se unir na cadeia’’, o parlamentar tem recorrido ao exemplo das últimas votações no plenário da Câmara. Para afastar as perspectivas de insucesso, Genoíno lembra que as bancadas do PT, PDT e PC do B, antes mesmo da formalização do bloco oposicionista, já votaram sistematicamente em bloco. E, também, sistematicamente contra as propostas do governo.
Aí é que está o ‘‘busilis’’. Mesmo se se considerar irrelevante o fato de essa unidade comemorada nunca ter levado sequer a uma votação expressiva, mas, sim, sempre a derrotas humilhantes, não convém considerar tal precedente como benéfico, seja qual for o prisma com o qual ele for analisado. Pois justamente o fato de ser sempre do ‘‘contra’’ tem levado a oposição de esquerda ao governo Fernando Henrique Cardoso a derrotas constantes e a frequentes sessões autopunitivas, como a feita em Vitória, há duas semanas, sob os auspícios do governador petista do Espírito Santo, Victor Buaiz.
O eleitorado brasileiro já amadureceu o suficiente para exigir propostas dos homens que se dispõem a ocupar cargos públicos em mandatos eletivos. E a esquerda nunca tem nada a propor, embora esteja sempre disposta a negar. Sua postura é semelhante a daquele espanhol ranzinza da anedota clássica, que cunhou o lema famoso: ‘‘Hay gobieno? Soy contra’’. A comparação é da lavra de um Roberto, não o deputado liberal Campos (PPR-RJ), um antigo e destemido inimigo, e, sim, o senador comunista Freyre (PPS-PE), líder de bancada da mais tradicional facção esquerdista brasileira.
A unidade obtida nas votações sistematicamente contra está levando o citado Genoíno e o animado Miro Teixeira (PDT-RJ) a apostarem numa ação monolítica no Congresso contra o inimigo comum, o fantasma perverso e frio do ‘‘neoliberalismo’’. Num momento destes, a palavra de um companheiro de jornada como Freire precisa ser levada em conta. Em entrevista ao jornal ‘‘O Globo’’, o senador comunista parodiou um dos autores que ele mesmo leu muito, Vladimir Ilitch Ulianov. Lenin escreveu um livro chamado ‘‘Esquerdismo, a doença infantil do comunismo’’. Para Freire, a doença infantil da esqueda brasileira é o ‘‘maniqueísmo’’, ou seja, a tentativa de reduzir a realidade ao eterno combate entre o bem e o mal e a incapacidade de enxergar nuances.
Freire tem razão. À lucidez de sua análise objetiva, embora apaixonada, só é possível acrescentar que essa visão maniqueísta é também egocêntrica: a esquerda só faz o bem, mesmo quando erra. O mal é um monopólio exclusivo do inimigo, o ‘‘neoliberalismo’’, o mais novo subproduto da malignidade da burguesia imperialista mundial, com sede em Washington. Ou seja, a esquerda brasileira não é apenas maniqueísta. É também arrogante.
Segundo o senador, ‘‘fazer oposição a este governo não é fazer oposição ao processo de mudanças’’. Só que essa defesa permanente do ‘status quo’ burocrático e das corporações retrógradas não se resume a uma resistência teimosa à necessária modernização da sociedade brasileira. Na verdade, como nunca têm nada a propor, os partidos de esquerda têm vivido politicamente de sua aposta no malogro da única proposta séria, coerente e bem-sucedida que vige no Brasil: o Plano Real. Como o sucesso do Plano Real é de interesse do povo brasileiro, eles estão apostando contra o povo. Querer ganhar eleições investindo contra os interesses dos eleitores é burrice. E, também, loucura.

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