O fenômeno sazonal do buraco da camada de ozônio, que costuma ser observado por um pequeno período nos meses de setembro e outubro sobre a Antártida, no Pólo Sul, apresentou um comportamento surpreendente este ano. De acordo com dados da NASA (a agência espacial norte-americana) e da Agência Atmosférica e Oceânica dos Estados Unidos (NOAA), o esgarçamento local da camada diminuiu cerca de 30%, em relação aos 23,4 milhões de quilômetros quadrados registrados no ano passado, e dividiu-se em duas partes distintas, assumindo um formato ovalado.
A princípio, o fenômeno poderia ser considerado positivo, já que revelaria uma tendência de recuperação da camada de ozônio original. Contudo, como explica Volker Kirchhoff, chefe do Laboratório de Ozônio do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos, São Paulo, trata-se apenas de ''uma curiosidade, que não indica uma reversão efetiva do problema''. A cautela na avaliação justifica-se, uma vez que o buraco já sofreu oscilações antes, tendo apresentado uma expressiva redução em 1988 e um significativo aumento em 1998 e, de novo, em 2000, quando alcançou 28,6 milhões de metros quadrados, a maior extensão já registrada desde que o fenômeno foi detectado, em 1985.
Mas não se trata de um problema isolado, que afeta só a região da Antártida ou o Hemisfério Sul. O buraco é, na verdade, a parte mais visível do fenômeno, que traz consequências nocivas para o homem, animais e plantas de todo o planeta. Como um escudo ou um filtro, a camada de ozônio, situada na porção da atmosfera existente entre 10 e 50 quilômetros acima da superfície terrestre, protege naturalmente a vida no mundo dos excessos da radiação ultravioleta do Sol. Se essa camada se esgarça, como vem ocorrendo, a radiação se intensifica, gerando, entre outras consequências, no que diz respeito à saúde do homem, um risco maior de câncer de pele, problemas oculares e diminuição da capacidade imunológica.
O esgarçamento do escudo protetor deve-se diretamente à ação do homem que, ao longo do século 20, produziu e utilizou em massa, especialmente em aerossóis e sistemas de refrigeração, os gases clorofluorcarbonos (CFCs), capazes de, ao reagir com o ozônio atmosférico, destruí-lo. Tão logo se percebeu a extensão e a profundidade do problema, no alvorecer da década de 80, iniciou-se uma corrida mundial para alcançar a recuperação possível. Em 1987, conquistou-se a primeira vitória, com o estabelecimento do Protocolo de Montreal, que prevê a interrupção progressiva da produção de CFCs, visando chegar ao corte de 50% até 2005 e à eliminação completa, em 2010.
Essa solução, no entanto, resolveu o problema de forma apenas parcial, uma vez que o gás agressivo para a camada de ozônio foi substituído pelos chamados HCFCs, ''um CFC melhorado ecologicamente'', como explica Kirchhoff, ''mas que ainda tem em sua molécula um átomo de cloro, capaz de, mais cedo ou mais tarde, também atacar esse escudo protetor''. O chefe do Laboratório de Ozônio do INPE, contudo, mostra-se otimista. ''Por um lado'', comenta, ''pesquisadores em todo o mundo estão se movimentando para encontrar a solução ideal. Por outro, a natureza sempre revelou capacidade para se adaptar às mudanças''.

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