Podem os leitores pensar que entrei numa onda de saudosismo. Alguns me acusarão de elitista. Outros de conservadora. Alguém mais afoito concluirá que estou ultrapassada. Afinal, cada qual faz seu julgamento e dita sua verdade. Mas o fato é que, com as honrosas exceções que sempre existem, penso que estamos vivendo a era do mau gosto. A música virou barulho. A dança, trejeitos. O teatro é palavrão. A pintura e a escultura perderam o sentido estético. A literatura geralmente é medíocre. O modo de trajar não tem mais glamour. Na TV, mulheres siliconadas fazem as delícias das massas em programas popularescos. E tem mais: os bons modos parece que se perderam nas curvas do tempo, os valores se alteraram negativamente e a mediocridade é regra geral. Até o respeito pela vida ficou diluído na violência que se alastra, ancorada na impunidade que campeia. E aqui me refiro especialmente ao Brasil, onde autoridades não se dão ao respeito e as leis não são cumpridas.
A esta altura é preciso lembrar que a televisão é um bom e escancarado meio de observar o moderno modo de vida brasileiro. Mas para não radicalizar, digo que também existem ótimos programas diluídos em meio à banalidade reinante. Por exemplo, os documentários sobre a vida animal são ótimos. Eu os assisto sempre que posso e me entretenho em comparar a selva animal com a selva humana. Percebo, então, que a diferença reside apenas nas gradações entre nós e eles. Aliás, a impressão que me fica desses programas, é que a energia ou inteligência que nos fez a todos neste planeta, criou emanações da mesma matéria. O resultado se consubstanciou em manifestações de uma mesma essência, ou de uma unidade e suas múltiplas formas.
Evidentemente, nós, os humanos, somos muito mais refinados que os outros animais. Com nosso cérebro muito mais complexo, a agilidade permitida por nossas mãos e dotados de uma estrutura óssea que nos permite andar eretos, levamos vantagens enormes sobre as criaturas mais toscas. Por isso, em nossa soberba, nos recusamos a ver qualquer semelhança, por exemplo, entre nós e os símios mais evoluídos. Entretanto, temos mais parecenças relativas do que diferenças absolutas com esses primos naturais.
Claro que não preciso dizer que falamos e escrevemos, apesar de que a maioria fala e escreve muito mal. Concedo, porém, que temos requintes que um babuíno não tem. Somos requintados na vingança, na ambição, na inveja, no ódio, na vaidade e em outros sentimentos negativos, sendo contudo, é claro, capazes de manifestar atributos opostos a estes, o que nós inclina à nostalgia do divino como se em nós também perpassasse os eflúvios de um Bem Supremo.
Mas momentos há, a verdade é essa, que o comportamento dos nossos semelhantes não é muito bonito de ser ver e, deixando de lado os crimes hediondos, as atrocidades sem conta, a inesgotável capacidade do homem de infelicitar o outro, tomemos uma amostra mais simplificada das atitudes alheias que vêm sendo observada atualmente por milhões de brasileiros através do olho mágico da TV. Estou falando de programas como ‘‘Big Brothers’’ e ‘‘Casa dos Artistas’’.
Noite destas, passando pela sala, vi o comentado ‘‘Big Brother’’ com seus integrantes desfilando diante dos olhos atentos de um dos meus filhos. Na noite seguinte ele assistia ao ‘‘Casa dos Artistas’’, onde uma loura despejava sem parar palavrões sobre outras mulheres, sendo que depois um sujeito grandalhão aparecia jogado sobre ela (ou seria outra loura?) num sofá, murmurando palavras ininteligíveis.
Entre os dois programas fiquei com o ‘‘Big Brother’’, que escolhi para assistir como se fosse um laboratório de comportamentos, algo mais ou menos semelhante ao ‘‘Mundo Animal’’ onde decifro melhor minha própria espécie.
Logo depois de observar as performances dos habitantes temporários da casa do ‘‘Big Brother’’, cheguei a duas conclusões: 1ª) através de tais espetáculos a televisão, com todo seu impacto em termos de alterações de comportamentos e valores, consegue prestar um espetacular desserviço de deseducar. 2ª) O espetáculo humano pode ser mais deprimente do que o dos animais no seu habitat. Bichos não são medíocres, nem traiçoeiros, nem falsos, nem deselegantes, nem mal-educados, nem hipócritas. Foi nessa hora que me ocorreu que, estudar zootecnia podia ter sido mais gratificante do que anos e anos dedicados às árduas teorias sociológicas. Afinal, como disse um pensador, ‘‘o homem pode descer mais baixo do que as bestas’’.
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária

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