O mundo assistiu no último final de semana um dos mais rápidos golpes de Estado da história. Em questão de horas, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, foi deposto do poder, preso e recolocado no cargo. Nesse intervalo curto de tempo, os militares que comandaram o golpe anunciaram a ‘‘renúncia’’ de Chávez e deram posse a Pedro Carmona, presidente da organização empresarial Fedecámaras, como presidente provisório do país. Este, tão rapidamente como assumiu, destituiu o Congresso e anunciou eleições em um ano. E mais rapidamente ainda deixou o cargo, quando militares simpatizantes de Chávez, indignados com a situação irregular imposta ao país, levaram o vice-presidente Diosdado Cabello à presidência.
Um conto de fadas ou uma armação à América Latina? Pareceu um conto de fadas, desses que os personagens fantasiam uma situação e a tornam mais real possível, pelo menos nos traços que cercam as histórias em quadrinhos. Mas o que aconteceu na Venezuela foi uma armação esquematizada por amadores, que talvez ainda sustentem seus sonhos no escandaloso passado da ditadura militar. Até a figura do dominador império americano, agora comandado pelo presidente George W. Bush, pareceu suspeito de ter a mão e o dinheiro enfiadas nesse golpe, que, aos olhos do mundo, não passou de uma brincadeira sem graça e perigosa. Chávez não é bem visto pelo governo americano por ser simpático ao presidente de Cuba, Fidel Castro, e por se alinhar a líderes odiados pelos EUA.
Conjecturas. Pelo amadorismo dos golpistas, percebe-se impossível a manipulação americana nesse caso. O império americano, provavelmente, nem teve tempo de esboçar apoio moral aos militares que depuseram Chávez. E depois do desastroso ato alinhavado, provavelmente preferiu assistir à distância o desenrolar dos acontecimentos. Seria vexatória a participação de qualquer potência mundial numa ação que se mostrou inconsequente desde o seu início e jamais os EUA queimariam o seu prestígio.
Reforça-se, portanto, que o golpe não passou de uma brincadeira, escorada nos exemplos do passado, quando praticamente toda a América enfrentou golpes, aqueles sim, patrocinados por potencias internacionais. Este, por isso mesmo, serve de exemplo não somente aos governantes, mas principalmente para os povos: agiram equivocada e impensadamente os militares; acreditou neles a população venezuelana. E a lição que resta leva à uma única reflexão. Se Chávez é ruim na presidência do país, sendo o regime em que ele se sustenta democrático, tem o povo como destituí-lo legalmente. Golpes são coisas de um passado muito pouco memorável.

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