Imagem ilustrativa da imagem 'Brincar' de salvar o mundo
| Foto: Divulgação


O que é preciso para salvar o mundo? Segundo Edgard Correia Júnior, arquiteto e urbanista que dedica sua trajetória a projetos sociais, é preciso brincar. Fundador do Instituto Elos, uma empresa de arquitetura dedicada ao ativismo comunitário, e do Guerreiros Sem Armas, programa de treinamento para jovens empresários em apoio às comunidades, ele descobriu metodologia social, envolvendo jogos de cooperação para transformação do mundo.

Seus projetos desenvolvem o protagonismo juvenil, forma lideranças, institui cooperação em comunidades e demonstra como o empreendedorismo de impacto pode dar certo por meio de suas experiências. Após o sucesso do jogo Oásis, utilizando tecnologias digitais para mobilizar jovens e adultos em ações sociais, está ativo com o projeto Play The Call, que combina mundo real e virtual para conectar jovens de todo o mundo em projetos de ativismo. A rede social tem o intuito de ativar 2 bilhões de pessoas para salvar o planeta.

Para começar, é preciso formar um time. "Sempre acredito que a sociedade tem o poder de tudo. O ser humano sempre fez as coisas juntos, chegamos onde chegamos por essa capacidade", afirma. A partir daí, tornar o problema em desafio e desenvolver ações brincando. Com essa forma de trabalho, Gouveia Júnior, que é de Santos (SP), viaja o mundo dando palestras sobre como atrair jovens para causas sociais e promover grandes transformações por meio de microrrevoluções.

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Toda ocupação possui uma função na sociedade. Como uma pessoa que não trabalha na área de assistência social pode encontrar seu propósito em prol da sociedade?

Geralmente, quase ninguém sabe qual é o seu dom, porque é uma coisa que você é e não uma coisa que você tem, não é uma habilidade, uma qualidade, um talento. Cada um de nós é um presente para o mundo, mas muitas vezes a gente não exerce. Tem pessoas que são incríveis ouvidoras, todo mundo quer contar tudo para elas, portanto, essa ocupação pode ser uma coisa muito simples. Pode ser um jardineiro, padeiro, bailarina, pode ser uma mãe, tem gente que o dom é ser pai e essa simplicidade encanta qualquer um, alimenta, transforma. A maior forma de encontrar qual é a sua ocupação no mundo é percebendo onde a tua chama mais se acende, com nenhum esforço, que você já é e só está esperando despertar em você, porque nem sempre a sociedade assopra a vela para o lugar certo.

A escolha de um curso na faculdade passa por diversas questões individuais. Como recuperar engajamento e instituir o protagonismo juvenil para mudanças sociais?

O protagonismo juvenil em mudança social sempre passa pelo coletivo. Eu costumo dizer que todo mundo que queira entrar nesse caminho deve montar um time. Acabou o tempo de super-heróis sozinhos, agora todos eles estão se juntando em ligas, até porque, em time, você fica mais criativo, mais forte, consegue mais recurso, tem mais resistência, mais resiliência. Mesmo que a universidade seja individual, o conselho é que cada um procure sua turma, as pessoas que mais se parecem, com paixões parecidas para descobrir a sua aventura. Em nossa abordagem, a gente gosta do desafio; eu sugeriria que, além de encontrar a turma, não olhar para isso como uma luta, um sacrifício, um sacerdócio, mas ver como um desafio, uma jornada épica, porque a energia muda totalmente. O melhor é que o caminho fica divertido, a gente cresce, cresce a amizade, aumentam os laços, aumentam as qualidades, habilidades e termina a missão muito mais rápido.

Que tipo de experiência pode contribuir para o desenvolvimento de liderança nestes jovens?

Experiências reais. Vai lá fora e lida com o mundo real. A universidade faz tudo muito dentro de quatro paredes. A extensão universitária ainda não está plenamente desenvolvida, a experiência fica ainda dentro de quatro paredes ou no máximo na tela do computador. Não importa a disciplina, pega uma causa ou organize encontros nacionais e regionais com estudantes da mesma área, mas se conseguir abraçar uma causa real, pungente na sociedade, isso deixa os estudantes muito mais excitados. Eles estão querendo entrar na universidade por um país melhor, diferente, então pegue um desafio real lá fora, monte o time, estabeleça a meta, o tempo, o que celebrar no final e se jogue. Isso desenvolve competências e lideranças de qualquer um.

A relação entre negócio e propósito gera o empreendedorismo social, mas de que forma esse negócio se torna sustentável?

A primeira coisa que eu queria clarear é que nem sempre a relação entre negócio e propósito gera empreendedorismo social. Tem muitas empresas que não são empresas sociais e têm conexão do negócio com propósito. Vamos colocar os casos que formem esse empreendedorismo de impacto, como costumamos chamar. Tem uma forma que pode ser sustentável sem dinheiro, mesmo sem gerar recursos financeiros, por meio de doadores na base regular que querem ser beneficiados por aquele serviço, aquele empreendimento e resolvem mantê-lo. É como o governo faz com muitos negócios normais, como sistemas bancários, negócio agrário, negócios digitais, nem sempre os negócios são sustentados por eles mesmos, muitas vezes são sustentados pelos impostos do País. Assim, muitos negócios, muitas ONGs, muitos empreendimentos sociais são bancados por indivíduos, empresas, por estímulos do governo também e dessa forma ficam sustentáveis porque são cuidados por alguém. Outra forma é o negócio que gera lucro financeiro para ele mesmo. Esse modelo também é interessante, ele acha um nicho de mercado que possa patrocinar, que gera recurso, que pode ser posteriormente aplicado na causa social. Às vezes o próprio "business" é uma causa social; por exemplo, ensinar inglês em áreas vulneráveis, muitos moradores de periferia podem pagar essa aula e esse serviço se torna sustentável.

Quais modelos de negócio você já aplicou em seus projetos?

Quando eu estava no Instituto Elos, nós tínhamos um escritório de arquitetura que gerava recursos financeiros e aplicávamos em projetos sociais. A partir de determinado momento, a gente percebeu que era importante que a ONG pudesse se sustentar sem depender de doações. A gente desenvolveu o jogo Oásis, que pode ser feito tanto em base gratuita para comunidades, como pode ser feito para empresas que querem que seus funcionários tenham essa experiência de empreendedorismo social. São pessoas que podem pagar por esse serviço e fazer entrar recurso na ONG.
Depois, continuei criando outros jogos para empresas e governos, jogos de empoderamento, de desenvolvimento de equipe, de desenvolvimento do propósito da empresa, de habilidades e valores dos funcionários e todos eles a gente fez conectados com ações sociais em comunidades. Então, nós pegamos funcionários da empresa, levamos para a favela, conectamos os times, damos uma missão impossível e ao mesmo tempo em que os funcionários estão prestando serviço comunitário estão também construindo o senso de valor, desenvolvendo o senso de time, conhecendo os companheiros numa ação diferente do de dentro da empresa.
O modelo de negócio que a gente criou foi trabalhar com games que desenvolvem individualmente e coletivamente funcionários de empresas e governos, que são os dois que podem pagar por esse serviço, e ao mesmo tempo beneficiar diretamente a comunidade levando esses públicos para ajudar a construir equipamentos que sejam necessários para empoderar essa comunidade a fazer por si mesma.

Você desenvolveu novas metodologias de atuação. Por que sentiu essa necessidade de produzir novas formas de trabalho?


Depois que fui montando outras organizações e movimentos, eu percebi a necessidade de criar outras formas que pudessem receber mais pessoas do que a gente dava conta nos outros programas. Nós percebemos que tem muito mais gente que tem necessidade, mas as vagas são limitadas. Então, havia a necessidade de abranger, numa escala internacional, mas com uma equipe para fazer isso era inviável. Isso fez com que eu fosse buscar tecnologias para aplicar o método utilizando mais ferramentas digitais com outras possibilidades de conexão para que aumentasse o poder de atuação de pessoas em vários lugares. Além disso, usar possibilidades de tecnologias open source, sem precisar que um de nós esteja lá, mas empoderando qualquer um a usá-la e fazer o desenvolvimento local na comunidade.
Foi aí que criamos o Play The Call, que são jogos com várias missões consecutivas que vão empoderando o time a construir o bairro de seus sonhos. Toda essa metodologia é voltada para uma ação real, utilizando tecnologias virtuais para que essas missões cheguem às pessoas e eles possam realizar de verdade, filmar, registrar e publicar novamente para inspirar outras pessoas.

O trabalho social sofre o estigma de ser difícil, pesado e que demanda um tempo que a maioria das pessoas não teriam. Como mudar esse pensamento?

A gente tem essa cultura de que mudar o mundo, a sociedade, consertar alguma coisa é sinônimo de trabalho difícil, árduo, pesado e isso vira um sacrifício, um sacerdócio. Entretanto, quando você pega o mesmo problema e transforma aquilo em desafio, a expressão muda completamente. É uma brincadeira, isso abre a energia criativa, aumenta a potência no seu corpo, abre o sorriso. O jeito de mudar essa ideia é só transformar o que é um problema em desafio, uma jornada épica, que naturalmente os corpos humanos já sabem o que fazer.

Como mobilizar a sociedade quando se tem uma cultura de responsabilização do Estado? Até que ponto a comunidade deve exercer o papel cidadão?

Sempre acredito que a sociedade tem o poder de tudo. O ser humano sempre fez as coisas juntos, chegamos onde chegamos por essa capacidade. As formas de lidar com essas questões é juntar os amigos e ir lá fazer. Quando começa a sair o resultado, naturalmente aparecem empresas, jornalistas, porque não é comum ver a comunidade se auto-organizando para fazer coisas incríveis, e logo em seguida vem o governo correndo com a parte dele para não deixar a comunidade sozinha, senão vão cobrar para cima dele. A iniciativa tem que ser sempre de quem está no local vendo a situação, vendo o problema. O estado tem responsabilidade, mas tem muita estratégia para fazer isso acontecer.


De que forma as novas tecnologias podem contribuir com o impacto social?

Elas têm muito potencial de construir impacto, primeiro que elas aceleram a comunicação. Antigamente, se você tivesse que chamar o pessoal para construir uma coisa juntos você tinha que, literalmente, bater na porta de cada um ou esperar para falar na igreja no final de semana. Agora, você grava uma mensagem e com apenas um clique manda para cinco mil pessoas. Outra coisa, você quer construir um playground, vai lá no Youtube e tem lá um tutorial de como fazer cada coisa, com um toque tem acesso a todo conhecimento produzido no mundo e em muitas áreas. Também ajuda na disseminação para falar para milhões ao mesmo tempo. Se a sua ideia for boa, correta e está no momento certo, você consegue alcançar milhares em poucos minutos e consegue agir com um impacto muito maior e distribuído para o planeta inteiro. As tecnologias apoiam em pesquisa, em mobilização e inspiração, ou seja, elas podem escalar profundamente o impacto local, regional e internacional.

O que é preciso para realizar grandes mudanças através da atuação local?

Faça um chamado poderoso. "Eu duvido que a gente consiga construir um playground na favela para fazer 200 crianças felizes". Muita gente vai dizer que não quer fazer um playground, não quer ir à favela, que acha que a prefeitura deveria fazer isso, mas você pode tornar isso atrativo. Essas mudanças grandes com atuação local dependem apenas de um convite. Solte nas redes sociais, use a tecnologia para chamar muito mais gente de forma que isso possa contribuir. O que é preciso: começar com um time, apresentar isso como um desafio e não como um problema, e divulgar. Torne isso visível, sedutor, que muito mais gente vai ver, isso vai escalar e a transformação local pode ficar muito mais rápida com uma multidão ao seu lado com o mesmo desejo.

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