O cérebro humano aprende melhor por meio da música e do movimento. É o que defende o londrinense Felipe Ferraz, que atualmente é professor de educação infantil na cidade de Sacramento, na Califórnia, nos Estados Unidos. Na opinião dele, cantar e brincar livremente são atividades que devem fazer parte do cotidiano da criança desde muito cedo, uma vez que proporcionam muitas vantagens para os pequenos.
  ‘‘A criança desenvolve habilidades cognitivas, físicas e sociais’’, garante o estudioso. Ferraz, no entanto, lamenta que atualmente o passatempo preferido da maioria seja o computador, o videogame e a televisão. ‘‘São hábitos viciantes, muitas vezes estimulados pelos próprios adultos’’, alerta.
  Para combater o sedentarismo infantil, pais e professores, segundo ele, devem estimular brincadeiras variadas. ‘‘É natural a criança gostar do movimento e da música. Mas é preciso despertar isso’’, aponta Ferraz, que graduou-se nos EUA em Child Development (curso voltado ao estudos da psicologia e da pedagogia infantis).
  Nesta entrevista, Ferraz discute também a aprendizagem de crianças portadoras de necessidades especiais e aponta as dificuldades de incluí-las em salas de aula convencionais, que ocorre tanto na educação brasileira quanto na norte-americana. ‘‘É importante incluir essa criança, mas é necessário oferecer estrutura e tomar uma série de cuidados’’, aponta.
 
Quais os principais fatores que contribuem para que a criança tenha uma aprendizagem realmente eficaz?
  Acredito ser importante a criança estudar em turmas pequenas, com número reduzido de alunos, e ter contato com grupos heterogêneos e não totalmente homogêneos no que diz respeito à idade. Isso contribui para o cérebro aprender. Pediatras e neurologistas asseguram que este é o modelo mais eficaz.
  Existem ainda três fatores de extrema importância para a aprendizagem, que foram definidos pelo médico americano Dan Siegel. São eles: relacionamento, reflexão e resiliência. O relacionamento e a reflexão contribuem para formar uma criança resiliente, que vai superar as dificuldades da vida.

O senhor defende que a aprendizagem é mais concreta por meio da música e do movimento. Por quê?
  É fundamental que as crianças estejam constantemente em contato com a música e com o movimento. O primeiro local do cérebro a se desenvolver é o responsável pela audição. A partir do quinto mês de gestação a criança já escuta a voz e as batidas do coração da mãe. Na década de 2000 ficou comprovado que quando a criança, ainda no ventre materno, escuta um som específico, como o B de bebê, ela reconhece o som e movimenta um determinado músculo. Todas as vezes que ela escuta aquele som faz o mesmo movimento. É uma grande sincronia. E a criança começa a atribuir um significado ao som, mesmo sem entender o que a palavra quer dizer, e já vai criando memória.
 
De que forma pais e professores devem explorar a música e o movimento no processo de desenvolvimento da criança?
  O movimento e a música devem ser realmente explorados. Quanto mais, melhor. É preciso cantar com as crianças, fazer brincadeiras de roda. Este tipo de atividade faz a criança desenvolver várias habilidades físicas e sociais. A criança começa a entender que ela não é o centro do universo e que devemos fazer aos outros o que queremos que façam para nós. Mas, com os avanços tecnológicos e com os problemas relacionados à falta de segurança, as crianças não podem decidir qual a brincadeira que realmente querem e ficam a maior parte do tempo no computador, videogame e televisão. É tudo muito regulado e determinado pelos adultos.

O hábito de passar muito tempo na frente dos aparatos tecnológicos pode trazer quais consequências?
  As tecnologias sempre estarão presentes em nossas vidas e temos que saber quando introduzi-las no universo infantil. Há pediatras que orientam que a criança não deve ter contato com a televisão até os 2 anos de idade, outros defendem que somente depois dos 3 anos os pais devem incluir um pouco de TV e videogame na rotina dos filhos. Esses hábitos são viciantes e a criança vai querer sempre mais. Isso acontece porque há um feedback imediato. É só apertar um botão para conseguir um resultado. Na minha opinião, as crianças de zero a 7 anos devem estar imersas no mundo real e não no virtual.
  Os pais encontram dificuldades para colocar isso em prática pela falta de tempo. Mas se pais e professores apresentarem brincadeiras com entusiasmo, a criança vai aprender a gostar e não vai buscar os jogos virtuais tão cedo. É natural a criança gostar do movimento e da música. É incrível a forma como interagem.

E no caso de crianças com necessidades especiais, como os pais e professores devem atuar?
  Crianças com necessidades especiais necessitam de cuidados específicos. O autista, por exemplo, necessita estar em ambientes mais calmos e em turmas menores para estimular a participação e a interação. Para incluir uma criança com necessidades especiais em uma sala de aula comum, é preciso tomar alguns cuidados.

  Mas, na sua opinião, o portador de necessidades especiais deve estudar em escolas convencionais?
  Na minha sala de aula, nos EUA, tenho trinta crianças entre 4 e 6 anos. É difícil. Imagina trazer uma criança com necessidades especiais? Fica demais para o professor. É importante incluir essa criança, mas é necessário oferecer estrutura e trabalhar em turmas menores. Só assim é possível realmente ajudar e incluir o portador de necessidades
especiais.

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