Brexit pode enfraquecer Mercosul
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sábado, 16 de julho de 2016
Loriane Comeli<br>Reportagem Local 

A ascensão de um discurso de extrema direta, conservador e xenófobo em vários países do mundo é um dos principais fatores da decisão do Reino Unido de retirar-se da União Europeia (UE), e essa atitude dos britânicos, tomada em referendo no dia 23 de junho, pode repercutir em outros blocos regionais, como o Mercosul. A avaliação é de Ludmila Culpi, professora de Relações Internacionais e Ciência Política no Centro Universitário Internacional Uninter e mestre em Ciência Política e doutoranda em Políticas Públicas.
No Mercosul, que não traz resultados práticos há anos no aspecto comercial, Ludmila acredita inclusive que países-membros possam votar, em plebiscito, sua retirada. No Brasil, lembra a professora, o bloco enfrenta críticas daqueles que defendem negociação direta dos países com a UE e os Estados Unidos, por exemplo. É o caso do presidente interino Michel Temer (PMDB).
No aspecto social, o principal impacto do Brexit é para quem tem passaporte de outro país europeu. Com o fim do livre trânsito de pessoas e de residência, brasileiros, por exemplo, que moram na Inglaterra, poderão ter de buscar outro país. Além disso, o Reino Unido deve deixar de ser um dos destinos preferidos. Outro fator negativo seria uma crise decorrente justamente do possível isolamento, que diminuiria empregos e possibilidades.
Quanto ao processo de saída, a professora lembra que a transição pode levar até dois anos. Todos os acordos e tratados terão que ser revistos, mesmo aqueles que o Reino Unido fez diretamente com países de fora do bloco, explicou a professora. E um acordo comercial que vem sendo discutido há 16 anos de comércio entre o Mercosul e UE será paralisado.
Como será o processo de transição para a efetiva saída do Reino Unido da União Europeia?
Com a confirmação de Theresa May como primeira-ministra, o processo deve ser apressado. Inicialmente, ela era a favor da saída da União Europeia; depois mudou de ideia e defendeu a permanência. Porém, ela já anunciou que vai levar em consideração a decisão dos britânicos: vai respeitar o resultado do plebiscito. Existia a possibilidade de um segundo plebiscito ser convocado, porém, com May assumindo, dificilmente isso vai se concretizar. Acredito que esse processo deve ser acelerado, até porque os líderes da União Europeia já solicitaram que a saída seja imediata para que eles possam renegociar todos os tratados, todos os acordos, comerciais ou migratórios. Com ela assumindo agora a princípio, ela assumiria somente em setembro o processo vai ser acelerado.
O que inclui esse processo de transição? Todos os acordos e tratados terão de ser revistos?
Existem duas possibilidades. O Reino Unido pode optar por sair da UE, mas por ficar no espaço econômico europeu (EEE), como é o caso da Noruega, que não faz parte da UE, mas faz parte da livre circulação de mercadorias, serviços, pessoas e capitais. Se optar por permanecer, alguns acordos permanecem, como os acordos migratórios. Isso significa que a circulação de europeus para o Reino Unido vai permanecer. Porém, caso o Reino Unido saia do EEE também, todos os acordos perdem a validade e teria que renegociar, revisar todos eles. Tanto os acordos que fez dentro da UE e com membros da UE como os acordos que fez com outros países, como o Brasil, China, os acordos comerciais. São 65 acordos que o Reino Unido fez através da UE que terão de ser revisados. Tem países que não fazem parte nem da UE nem do EEE, como é o caso da Suíça, mas que fazem parte dos acordos migratórios, que seria a área Schengen. Há várias alternativas.
E qual deve ser a opção do Reino Unido?
Eu acredito que o mais provável é que saiam também do EEE porque, afinal de contas, a grande questão que motivou o plebiscito foi a questão migratória e o tema dos refugiados. Para eles poderem retomar os controles migratórios, teriam que sair desse espaço econômico e aí negociar acordos migratórios individuais. Por exemplo, só com a França, só com a Bélgica, só com a Alemanha. E não incluírem outros países e, muito menos, refugiados.
Mesmo com a decisão do Reino Unido, obviamente a chamada crise migratória permanece. Isso pode levar outros países a deixarem a UE para tentar fechar suas fronteiras?
Do meu ponto de vista, a saída do Reino Unido é o resultado do crescimento da extrema direita na Europa e no mundo; é uma manifestação de um movimento xenófobo, conservador, contra o imigrante, um movimento que não cresceu só na Inglaterra, só no Reino Unido, cresceu também na Alemanha, na França, na Hungria, nas principais economias da UE. Na França, a Marine Le Pen, líder de extrema direita, já anunciou que quer convocar um plebiscito também para a França sair da UE. Por isso, existe, sim, a possibilidade de outros países solicitarem a saída da UE através de referendos.
Quais os principais impactos da saída do Reino Unido? Eles vão ser sentidos somente daqui a dois anos? E que tipo de impacto o Brasil deve sentir?
O primeiro impacto que o Brasil deve sentir mais diretamente é a questão dos acordos que estavam sendo negociados entre Mercosul e União Europeia. O Brasil é o principal líder do Mercosul junto com a Argentina e o Reino Unido era um dos apoiadores desse acordo, que era um acordo comercial que ia nos trazer muitas vantagens, muitos benefícios econômicos, porque a gente ia vender muitos produtos agrícolas para eles e, de alguma forma, poderia ser uma saída para nossa crise, uma recuperação das exportações. Com a saída do Reino Unido, a principal consequência é a paralisação desta negociação. E, claro, os imigrantes brasileiros que estão lá e que de alguma forma são beneficiados pela UE, que têm passaporte europeu, iriam ter que procurar outras alternativas. Teriam que tentar uma residência permanente lá por outras formas, que não o passaporte europeu, ou teriam que migrar para outros países. Muitos daqueles que hoje estão querendo ir para o Reino Unido com passaporte europeu já têm que pensar em outra alternativa. Para a imigração ilegal, não muda muita coisa, porque já está ilegal.
Qual o tamanho do impacto da paralisação das negociações do acordo com o Mercosul?
A UE é o nosso maior parceiro comercial, seguido dos Estados Unidos e da China. Ou seja, se houver aumento das exportações, a gente poderia aumentar o PIB e aquecer a economia, ter mais empregos. O Reino Unido representa pouco da nossa pauta de exportação 1%, aproximadamente, dos nossos produtos e o que eles mais compram da gente, além de alimentos, como carnes, são pedras preciosas. Já a UE é um grande mercado nosso. É um acordo que vem sendo negociado há 16 anos, que o Brasil teria muito a ganhar. E o Brasil vive uma crise política, o Temer ainda é o presidente interino e não foi convocado, por exemplo, para as últimas reuniões de cúpula do Mercosul. Então, não está negociando nem com o Mercosul nem com outros países. É um processo de transição. Então, eu acredito que a negociação desse acordo vai ficar suspensa por algum tempo. Acredito que somente a partir da solução em relação ao Reino Unido porque a UE, digamos, tem mais prioridades agora é que o acordo com o Mercosul vai voltar a ser prioridade.
Sobre o Mercosul, esse bloco sul-americano pode sentir outros impactos da decisão do Reino Unido?
O Mercosul se enfraquece porque a UE é uma referência de processo de integração regional, é o principal processo de integração regional. E uma crise pode se refletir em outros blocos. Então, pode provocar também um impacto aqui no Mercosul, com assertivas como "não queremos mais o Mercosul", "o Mercosul é um gasto", "o Mercosul é desnecessário". E isso pode até provocar, por exemplo, um plebiscito para a saída do Brasil, acredito eu que por parte do Temer porque ele, assim como o José Serra (ministro das Relações Exteriores interino), é crítico do Mercosul, no sentido de que o Mercosul emperra negociações com outros países. Acredito que há possibilidade, sim, de o Mercosul ser flexibilizado, se enfraquecer, talvez perder membros. Na América do Sul, a gente tem um movimento maior de retomada do neoliberalismo, de direita, que não vê o Mercosul bem, que prefere negociar com os Estados Unidos, com a UE. Então, provavelmente, o Mercosul vai ficar enfraquecido, fragilizado. Hoje, o Mercosul tem poucos resultados econômicos para nós. Já teve uma fase áurea nos anos 90 até os anos 2000. Agora, não são vistos claramente os resultados em termos comerciais, porém, em termos sociais, se tem, por exemplo, o acordo de livre residência, que é uma vitória, e é um espelho da UE: muitos não sabem, é possível morar livremente na Argentina, no Uruguai e nos países-partes, como Peru, Bolívia, viver como cidadão com todos os direitos.
O prognóstico é de problemas econômicos para o Reino Unido. Isso afetará brasileiros que vivem lá de que maneira?
Acho que o Reino Unido pode passar por uma crise econômica e isso pode gerar desemprego, pode provocar a desaceleração da economia e o brasileiro que vive lá vai sentir... O Reino Unido vai deixar de ser a prioridade dos imigrantes brasileiros, que migram pela questão do idioma, do emprego. Eles podem optar por ir para a Irlanda, que cresce muito na UE, que tem tido maior expansão de PIB, e também fala inglês e que tem acordos migratórios com o Brasil, acordos exclusivos com o Brasil. E o Reino Unido não tem.
De maneira geral, então, todo mundo acaba perdendo com essa decisão do Reino Unido?
Sim. De maneira geral, sim. Acredito que muitos daqueles que votaram no plebiscito pela saída do Reino Unido da UE não tinham a dimensão econômica e política que isso teria porque, para eles, era assim: "Estou votando para que não recebamos mais refugiados". Eles não sabiam que isso ia desvalorizar a libra; que a bolsa de valores de Londres ia ter uma queda tão substancial; que os acordos comerciais com a UE deixariam de valer e que isso traria alta de preços, desemprego; que muitas empresas que poderiam se instalar no Reino Unido vão procurar outros países. Então, em termos econômicos, o Reino Unido tem muito a perder e vai ficar isolado. Sem contar a pauta separatista: a Irlanda do Norte e a Escócia, que são pró-União Europeia, e poderiam sair do Reino Unido, ficando somente País de Gales e Inglaterra. O que tem se projetado é que vai ser bastante duro com a economia do Reino Unido.
E há vencedores?
Acredito que o principal ganhador é o conservadorismo, a extrema direita. E acredito que isso tem uma influência sobre o Brasil. A gente tem observado o crescimento desse movimento de extrema direita, com um discurso conservador, atrelado à religião, no caso brasileiro. E esse movimento é mundial. A gente pode ver o Donald Trump, nos Estados Unidos, crescendo nas pesquisas eleitorais. Eu vejo como um movimento da direita no mundo. Mas não da direita neoliberal, e sim da direita extrema, daquela direita que luta contra o imigrante, contra o negro, homossexuais, minorias. É um movimento que vai ter impacto no Brasil.
A que se atribui o avanço desses movimentos de direita?
Pode ser um descontentamento com o Estado. Na economia, a direita representa a ideia de não participação do Estado, a ideia de que o Estado fracassou, não tem dado conta. No Brasil, isso está muito atrelado à ideia de corrupção, um Estado que não consegue resolver seus problemas internos. E também uma pauta conservadora que aqui, no Brasil, está atrelada à religião, e na Europa é mais um movimento contra o imigrante. Essa questão migratória que vem desde 2011, com o conflito sírio, que repercutiu muito na UE, com a expansão de refugiados e imigrantes na UE, e isso repercutiu também em aumento de desemprego... Então, a população está descontente mesmo com o resultado porque aumentou a violência, porque aumentou a marginalidade desse refugiado, que não tem acesso a emprego, não se integra, não fala o idioma, então, vai para a marginalidade e necessariamente aumenta a criminalidade no país. Tinha países, como a Suécia, em que a criminalidade era quase zero e houve aumento. As pessoas atribuem isso ao imigrante, erroneamente, mas atribuem ao imigrante. É um problema social, sem dúvida.


