Breves considerações sobre o trabalho, a justiça e a dignidade - Regina Kracik Teixeira
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de abril de 1999
Regina Kracik Teixeira 
Neste 1º de maio, Dia do Trabalho, há pouco para comemorar e muito para causar apreensão, a começar pelos índices nacionais de desemprego divulgados esta semana pelo IBGE: taxa de 8,15% em março, contra 7,51% em fevereiro, e de 7,79% no trimestre - percentual nunca antes registrado pelo Instituto nesse período do ano.
Em consequência, cresceram no País a informalidade no mercado de trabalho, o chamado desemprego oculto, por trabalho precário ou desalento e o número de trabalhadores sem carteira assinada (ou mesmo sem carteira), bem como o volume de desistências na procura por novo emprego, dada a dificuldade de absorção da mão-de-obra por setores hoje retraídos, como a construção civil, a indústria, o comércio e o setor de serviços. Um conjunto de fatos com uma sequência de impactos sociais para os quais não se vislumbram chances de melhora, senão de agravamento - pelo menos neste primeiro semestre.
Diante desse quadro, lamento não poder contar com as lúcidas análises e as mordazes críticas que meu pai - o jurista, professor e jornalista João Régis Fassbender Teixeira, mestre na área do Direito do Trabalho falecido no ano passado - por certo lhe dedicaria. Conservo, no entanto, as lições de João Régis, informalmente ministradas desde a minha adolescência. Entre elas, a que me ensinou a origem da palavra trabalho, que vem do latim tripalium, nome de um instrumento de tortura. Na Antiguidade clássica, trabalho considerado indigno era visto como uma espécie de tortura. Uma visão não muito diferente daquela consignada no Velho Testamento: ao expulsar Adão e Eva do Paraíso, por terem cometido o pecado original, o Anjo do Senhor - com o melhor latim que lhe pôde emprestar São Jerônimo - diz a Adão: In sudores vultus tui, verceris pane tuo - do suor do teu rosto comerás o teu pão. Ou seja, trabalho era o mesmo que castigo. Porém, como a isso a humanidade acostumou-se, mesmo porque a necessidade gera o hábito e a aceitação, já o Novo Testamento muda o discurso: Dignus operarius merced suan - digno é o trabalhador de seu salário. Pena que as palavras de São Mateus não se apliquem, como deveriam, a grande parte dos trabalhadores brasileiros deste final de século (e de milênio), posto que, desempregados, não podem ser dignos do salário que não têm, ou, empregados, avilta-os a indignidade do próprio salário. A propósito dessa invenção de Getúlio Vargas á- o salário mínimo - promulgada juntamente com a Consolidação das Leis do Trabalho e que pressupunha oferecer o mínimo necessário a uma existência digna, disse um humorista, aí pelo início dos anos 70: O que é que vocês querem? O salário mínimo não é nada, não é nada... não é nada. E sabe a maioria dos brasileiros - que escapa ligeiramente a essa faixa - que um pouco mais do que nada ainda é muito pouco.
Mas não sejamos simplistas: o que está em questão não é uma política de salários, e sim uma política de empregos e, mais ainda, uma política econômica que torne exequíveis tanto uma política de empregos quanto de salários. Para que isso aconteça é necessário, antes de tudo, diminuir o abismo existente entre empregador e empregado, de modo a conscientizá-los de que ambos estão no mesmo barco e, portanto, seus esforços devem convergir, inclusive no sentido de reivindicações mais abrangentes e eficazes junto às esferas governamentais. Essa noção de parceria e disposição para o diálogo deve, obviamente, merecer a reciprocidade do governo - e não apenas em termos teóricos. Ou se estabelece, por assim dizer, uma aliança tripartite trabalhador-empresa-governo, efetiva e definitiva, voltada à geração da riqueza nacional e sua melhor distribuição, ou continuaremos a lamentar a antinomia existente entre trabalho e justiça social.
P.S.: João Régis certa vez escreveu as seguintes palavras, que incluo ao meu breve texto, com elas estabelecendo uma parceria afetiva que visa endossar-lhes a sabedoria revestida de simplicidade idealista: É tempo que os Homens do Mundo tenham a certeza de que o Diálogo está acima, inclusive, do próprio amor. Não sobrevive quem não conversa, quem não dialoga, quem não se entende. Lebret dizia, com propriedade, que dois terços da humanidade não dormem porque têm fome; e um terço desta mesma humanidade também não dorme ... com medo dos que têm fome. E acaba ninguém dormindo. Vamos dar as mãos. Vamos crescer juntos. Vamos cumprir, cada um de nós, a Missão que nos foi imposta pelo Destino, ricos ou pobres. E acabaremos, por certo, comendo, dormindo e amando cada qual o tanto que merece e... precisa.
- REGINA KRACIK TEIXEIRA é jornalista, empresária e diretora da Folha de Londrina/Folha do Paraná


