Breve história da propaganda
No início dos anos 80, entre as 12 maiores agências de propaganda do Brasil, oito eram 100% brasileiras. Vinte anos não são tanto tempo assim, mas a propaganda é uma atividade jovem e, provavelmente, boa parte dos que estão na linha de frente das agências atuais não se lembrem mais. No topo da lista estava a MPM, a agência que três gaúchos Luiz Macedo, Petrônio Corrêa e Antonio Mahfuz fundaram em Porto Alegre, em 1957, e que foi a maior agência brasileira entre 1975 e 1990. Em segundo vinha a Almap, que ainda se chamava Alcantara Machado Publicidade. O P da sigla se transformaria, quando ela virou Alcantara Machado Periscinoto (de Alex) Comunicações. A terceira era a Salles, ainda de Mauro Salles, seu fundador e presidente. Em seguida, aparecia a primeira multi: a McCann-Erickson. Na sequência, mais três brasileiras: DPZ, Norton e Denison. Essa última ainda englobava a unidade Rio, onde a agência nasceu.
A J. Walter Thompson ocupava o oitavo lugar no ranking, depois de ter competido, durante muitos anos, pelas primeiras posições com a McCann. A Standard, Ogilvy & Mather era a agência seguinte. Mais antiga agência brasileira em funcionamento, a Standard Propaganda foi fundada por Cicero Leuenroth em 1933, e foi a primeira grande agência brasileira a ser vendida a uma multinacional. O legendário David Ogilvy veio pessoalmente ao Brasil para fechar o negócio.
As três agências que fechavam o ranking eram: a Artplan, que vivia um de seus períodos de glória como maior e mais importante agência carioca; a inglesa Lintas (iniciais de Lever International Advertising Services), cujo maior mérito ainda era de concentrar a maioria das verbas da Gessy-Lever e a CBBA Castelo Branco Borges e Associados agência fundada por Renato Castelo Branco, depois que se aposentou da JWT, com Dirceu Borges.
As quatro agências multinacionais ainda hoje integram a lista das maiores, que é encabeçada pela McCann, agora não mais uma só agência, mas um grupo delas. A DPZ resistiu ao recente assédio da DDB e permaneceu nacional, talvez mais por idiossincrasia de seus donos e diretores e por insistir em receber um preço justo pelo bom negócio que representam. A Artplan desceu alguns pontos no ranking, mas continua a ser 100% brasileira e carioca.
O que aconteceu com as outras? A MPM foi absorvida pela Lintas e, literalmente, desapareceu da face da terra. A Almap passou a fazer parte do Grupo BBDO que havia tentado, antes, fazer negócio com a Lage, Stabel, Guerreiro (que não existe mais com esse nome) e com a CBBA. A Salles associou-se, primeiro, a um grupo muito digno, que reunia casas tradicionais americanas, como a DArcy-McMannus e a Benton & Bowles, mas que também foi racionalizado e hoje se agrupou como DArcy (que lá, nunca foi uma agência muito expressiva). A Norton faz parte do Grupo Publicis predominantemente europeu e a Denison desapareceu, depois de ter sido absorvida pela Ted Bates, que, também, já não tem esse nome de um dos reais pioneiros da também desaparecida (como símbolo da propaganda) Madison Avenue. E a CBBA também é apenas um registro na história da propaganda, depois de ter sido incorporada à JWT hoje integrante de uma gigantesca holding de comunicações da qual também faz parte a Ogilvy...
Houve é claro algumas modificações importantes entre a lista de 80 e a de 2000. Há duas novas empresas brasileiras entre as 12 maiores: o Grupo Total/Fischer (que declara intenções de ser a primeira multinacional brasileira), as organizações Propeg agência que nasceu na Bahia e a Talent, ainda de Julio Ribeiro. Caras novas entre as estrangeiras são a DDB, que absorveu a DM-9 (também nascida baiana); o Grupo Young & Rubicam; a FCB, associada à Giovanni e a Euro RSCG (iniciais de Roux Seguela Cayzac Goudard). São oito estrangeiras e quatro brasileiras. Portanto, inverteu-se a situação de 20 anos atrás.
Isso é bom para a propaganda e para a economia brasileiras? Não sei. Desconfio que não. Propaganda é uma atividade em que o principal insumo é o talento das pessoas. E as pessoas que produzem, aqui, os anúncios e campanhas que rendem dividendos no exterior, são profissionais brasileiros, com talento para ter idéias que vendem produtos e serviços de todas as nacionalidades a consumidores brasileiros.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é jornalista, publicitário, professor e dirigente de instituição universitária no Rio de Janeiro





