Breve elogio à ciência e à sensatez em tempos de pandemia
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segunda-feira, 31 de agosto de 2020
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A humanidade sempre precisou de luz, por não aceitar o mundo como uma escura caverna. A Bíblia afirma (Gên. 1,3-5) : “E Deus disse: Exista a luz. E a luz existiu. E Deus viu que a luz era boa; e separou a luz das trevas”. Conta-se que o poeta Goëthe pronunciou, ao expirar, as seguintes palavras: “Deixem entrar a luz”. Também o iluminismo (sec. XVIII) configurou uma exaltação às “luzes do conhecimento” fundado na razão e sensibilidade, ao apregoar a valorização da ciência.
No entanto, apesar dos avanços tecnológicos e científicos , ainda há quem negue a ciência. Isso é espantoso porque muitas dessas pessoas ocupam parcelas significativas de poder. E com suas atitudes negacionistas – visando ao alcance de mais poder, ainda que ao custo de vidas humanas - propiciam situações que culminam em mortes que poderiam ser evitadas, se respeitadas fossem as orientações das ciências da saúde. Saúde é direito fundamental, assim previsto na Constituição Federal (CF, art.196): “ A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.
No Estado Democrático de Direito ( CF, art.1º), os governantes, ao serem eleitos, juram ao povo, em ato público, o cumprimento da Lei Magna. Tal juramento deve ser levado a sério não só por aqueles, mas também pelo povo que os elegeu. O Brasil contabiliza mais de 115 mil mortos pelo “coronavírus”. É hora de todo eleitor perguntar-se: como os governantes do país (em nível federal, estadual e municipal) têm-se comportado em relação ao dever de cumprir o que manda a Constituição sobre a saúde, cuja observância juraram perante a população brasileira? É responsabilidade do cidadão colocar-se diante de tal pergunta e muito refletir antes de decidir em quem votará nas próximas eleições.
Outra questão: como são estes “tempos pandêmicos” ? Multifacetados, solitários, solidários, de ansiedade, tristeza, compaixão, dor, medo e esperança. Para milhares de pessoas a vida não continua. Seus corpos sem vida comprovam que a pandemia jamais foi uma simples “gripezinha”. Tempos que anseiam por ciência e luz diante da insensatez que louva a ignorância e reduz vagas nos cemitérios. São tempos de acirradas polarizações ( “nós contra eles, eles contra nós”), da “cultura do cancelamento”, de agressões à imprensa profissional, vingança anônima, negação da ciência e proliferação de “fake news”.
Tempos de anestésica insensibilidade, cegueira, ausência de empatia, e de respeito à dor alheia. Tempos de violentas desocupações de espaços que incendeiam barracos, jogam ao léu, no frio inverno e em plena pandemia, pessoas vítimas da miséria . Tempos em que o pranto de milhões dessas se depara com a cruel indiferença de quem lhes deve amparo e respeito. Tempos em que as máscaras de tecido pedem a retirada das “máscaras do poder”, exigindo transparência e empenho a serviço de todos e socorro imediato aos mais vulneráveis que imploram por um respirador e não o encontram disponível. Tempos denunciadores da inércia de quem deve socorrer. Tempos de defender as instituições democráticas e de refutar ataques à democracia e ao Estado Democrático de Direito. Tempos de recusa do discurso economicista defensor da supressão de políticas públicas indispensáveis a salvar vidas e a preservar a natureza em escalada destruição. Tempos de explosões catastróficas, secas, incêndios criminosos que destroem florestas, fauna, flora e empesteiam os ares e os mares com sufocante fumaça e lixo . Tempos de um “novo” gerador de incertezas, mas também de encontros virtuais que alimentam cooperação e esperança. Espera-se que, apesar dos aspectos sombrios, a luz da vida, do conhecimento, da fé equilibrada com a razão, do amor e da fraternidade preponderem e vençam.
Que Deus tenha piedade pela estultice daqueles que, visando apenas ao egoístico gozo do poder, negam a ciência, fruto da inteligência humana que é reflexo do próprio Criador e de cujo nome fazem mal uso. É hora de bradar, com o poeta Goëthe: “Deixem entrar a luz!” Que as luzes da razoabilidade e do conhecimento façam prevalecer a inteligência, a fraternidade, a empatia, o diálogo e a solidariedade. Sem isso, o Brasil continuará sob os riscos da pior das pandemias: a da insensatez que nega a Ciência. Fiat Lux!
Sergio Alves Gomes,doutor em Direito (PUC-SP), professor associado da UEL


