Breve análise do poder - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de fevereiro de 1999
Maria Lucia Victor Barbosa 
Vai começar o Carnaval, e por enquanto os trancos que o País tem levado parece não terem ainda atingido os comportamentos populares adquiridos durante os quatro anos de calmaria do Plano Real. Continuam cheios bares e restaurantes, sobretudo, em finais de semana, e nos supermercados as pessoas se dedicam à doce tarefa de encher seus carrinhos com as mercadorias dos seus desejos. Se entrevistadas por alguma televisão, enquanto percorrem as ruas de olhos nas lojas, queixam-se, e muitas referem-se à crise de forma difusa, sem saber detectar com maior precisão as causas do males que dizem afligi-las. Na verdade, nesse momento preparam-se para o Carnaval, sonhando sacolejar nos clubes de suas cidades, ou tomando o rumo de outros espaços mais aprazíveis, de preferência aqueles onde possam sambar e se divertir enquanto usufruem da natureza privilegiada que habita nossas praias, desdobradas em mares azuis que parecem não ter fim.
Enquanto todos se divertem sem pensar no amanhã, porque é Carnaval, mais se divertem os que em suas lojas, bares, botecos, hotéis e restaurantes etc., vão subindo os preços de acordo com o tamanho de sua ganância e ambição. São os adeptos da inflação, agindo à vontade.
Divertem-se também certos políticos, especialmente aqueles que, não tendo conseguido ganhar as eleições, entretêm-se jogando como oposição sem que isto lhes acarrete qualquer responsabilidade. Ou mesmo os que tendo assumido o governo em seus Estados, ingressaram no bloco dos caloteiros criado pelo governador de Minas Gerais, Itamar Franco. Como comerciantes inescrupulosos, eles não estão nem um pouco preocupados em passar a conta de sua irresponsabilidade para o povo brasileiro. Que se aumentem impostos e juros, porque eles não abrem mão dos seus gastos perdulários, das contratações de amigos e parentes, e de tudo que implica em usufruir das delícias do poder.
Vendo esses governadores chamados de oposição, observando a classe política de modo geral, ou mesmo o homem comum, que na sua mercearia sobe o preço da ração de cachorro ainda que esta não tenha nada a ver com o dólar, dá vontade de perguntar sobre os sentimentos que induzem o ser humano a desejar o poder. E pensando bem, entre os vários sentimentos que estimulam a busca de qualquer forma de poder, encontram-se: a ambição, a vaidade, o ciúme e a inveja.
A ambição, esse desejo ardente de possuir alguma coisa material ou imaterial, que possibilite maiores patamares de satisfação, está constantemente direcionada a algum tipo de poder como o político, o econômico, ou que se relacione com qualquer honraria. É um sentimento válido se funciona como estímulo ao progresso individual e coletivo, ou pode extrapolar os tênues limites da normalidade para servir a egos doentios. Em alguns detentores do poder político, a ambição não tem limites, e encontra-se ligada a uma descomunal vaidade. Assim, eles constróem o chamado culto da personalidade, almejando se transformar nos heróis divinizados do seu povo. A ambição ligada à vaidade busca o ideal de ser o super-homem, que como explica Nietzche, destrói os ídolos e orna-se com seus atributos.
O ciúme, esse sentimento de resguardar com zelo intenso o que se possui, está ligado ao temor da perda. Ele representa a necessidade completa de domínio não só sobre a pessoa amada, mas se abre em leque em várias outras circunstâncias guardando em si nuances e complexidades. Tão pouco admite divisões e partilhas, pois é o desejo de posse completa, é o poder que não se divide; e esse sentimento provoca dolorosas sensações de preterimento ou perda, diferindo do instinto natural de propriedade que nos animais aparece na delimitação dos seus territórios.
Para muitos na esfera política o poder não pode ser compartilhado. E a história já mostrou várias vezes, que se for preciso matar em nome da política, assim será feito como punição aos que ousam arrebatar o poder de alguém. Evidentemente, esses ciumentos políticos conhecem formas mais atenuadas de afastar seus concorrentes, como intrigas, difamações, interdições a cargos e honrarias, mas o fato é que ninguém que detenha algum tipo de poder interessa que outro invejoso venha suplantá-lo. Geralmente por isto, governantes de todos os quilates preferem que seu staff seja constituído por pessoas consideradas inferiores a eles para que sua autoridade não seja ofuscada.
Sintetizando, pode-se dizer que o homem apaixonado é o ciumento do amor, o homem avarento é o ciumento da riqueza, e o homem de inclinações absolutistas é o ciumento da política.
A inveja é o sentimento de desejar o que outros possuem, de não admitir ter ou ser menos. Basicamente, o invejoso é por excelência o inconformado com o poder alheio. Ele aparece em todos os meios sociais. Parentes se invejam, colegas de trabalho se invejam, empresários se invejam. E na sociedade de consumo há uma indústria da inveja construída por agências de propaganda. Estas agências estão sempre a soprar nos ouvidos dos consumidores coisas do tipo: Se seu vizinho pode ter aquele carrão do ano, porque você também não pode? Será que ele pensa que é melhor que você?
Na política, a inveja é o grande motor das intrigas, das conspirações, das maledicências. O poderoso não suporta bem a glória e o esplendor de outro. O brilho dos seus rivais o ofusca, deprime, enraivece. E sua inveja também está ligada à sua imensa vaidade.
Resumindo esta análise do poder, digamos que a ambição é o querer ter, o ciúme é o querer manter, e a inveja é o querer tomar. E estes sentimentos estão ligados ao poder de modo geral, e ao poder político de modo específico. Fora disto resta o faz-de-conta do Carnaval.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
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