Brasília/ Ruy Fabiano
O presidente Fernando Henrique enfrenta hoje um paradoxo, nas eleições para as presidências da Câmara e Senado: o que pode comprometer o destino de seus candidatos - Michel Temer (PMDB-SP) e Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), respectivamente - é o excesso, não a escassez de seu prestígio político, consideravelmente fortalecido após a aprovação em primeiro turno da emenda da reeleição.
Exatamente por dispor de um poder pessoal raramente desfrutado por um presidente da República em regime democrático, Fernando Henrique pode encontrar resistências inesperadas, sobretudo na Câmara, um colegiado mais numeroso e, por isso mesmo, menos controlável.
A contabilidade eleitoral do governo, ontem, era das mais otimistas, tanto para a Câmara como para o Senado. Entre parlamentares mais experientes, no entanto, admitia-se a hipótese de surpresa, ao menos em uma das duas casas. Se o governo ganhar em todas as frentes, aí é que o Legislativo deixará de ter sentido. Se hoje não temos direito nem de votar medidas provisórias, o que esperar do futuro, caso o presidente continue a reinar aqui? O desabafo é de um personagem do baixo clero, que prefere manter-se oculto, já que, da boca para fora, jura que vai votar em Michel Temer.
Quantos estarão agindo assim? Eis um mistério a ser revelado apenas após a abertura das urnas. Ambas as votações são secretas - e esse é o ponto nevrálgico do processo. O poder de retaliação do governo, fator de intimidação dos parlamentares, só pode ser exercido, como é óbvio, mediante identificação do voto. Na emenda da reeleição, o voto era aberto. Mesmo os descontentes não ousaram afrontar o rolo compressor do Executivo. Na eleição de hoje, não: o voto é secreto, sem testemunhas. Não há como identificar os dissidentes.
Uma eventual derrota do governo, hoje, não muda a expectativa em torno da reeleição, que deve ser confirmada nas votações futuras (segundo turno na Câmara e os dois turnos no Senado). Apenas vai obrigá-lo a novos ajustes políticos, que se resolvem com a reforma ministerial. A confirmação da expectativa de vitória torna o rolo compressor palaciano mais voraz e truculento - sobretudo com os dissidentes.
TEATROo candidato dissidente à presidência do Senado, Íris Resende (PMDB-GO), foi ontem pedir ao presidente Fernando Henrique, no Palácio da Alvorada, que não se envolva na disputa entre ele e ACM, prometendo, caso seja vitorioso, apoiar os projetos do governo.
O presidente Fernando Henrique recebeu-o cavalheirescamente e garantiu que se manterá equidistante do processo. Isso é problema do Legislativo, tem repetido o presidente, afetando desinteresse. Íris despediu-se aparentando satisfação. O encontro poderia ter tido como trilha sonora aquele samba de Nélson Sargento, da Mangueira, que diz: O nosso amor é tão bonito/ela finge que me ama/ e eu finjo que acredito.





