Brasília/ Ruy Fabiano
Há uma diferença significativa entre apoio, em tese, à causa da reeleição e o clamor das ruas. O presidente Fernando Henrique, segundo pesquisas de opinião recém-divulgadas, encontra respaldo na maioria da população à idéia de disputar mais um mandato.
Entre isso e a afirmação de que é a rua que nos quer, como disse o presidente, vai uma considerável distância. A idéia da reeleição não nasceu na sociedade, nem propriamente a entusiasma.
Foi-lhe posta - continua sendo - a partir de intenso bombardeio do noticiário, sob o argumento de que é vital para preservar as conquistas do Plano Real. Não houve ainda debate sério a respeito dessa premissa, que, evidentemente, é questionável. Como é óbvio, a estabilização da moeda é um fetiche poderoso, que hoje sensibiliza a opinião pública mais que qualquer outra coisa.
A simples hipótese de retorno à insânia inflacionária faz tremer a classe média e, sobretudo, a classe mais pobre, cujo poder de consumo, zero ao tempo da inflação, passou em alguma medida a existir com o real. Ao conStatar essa circunstância, o governo decidiu investir na própria continuidade. Encontrou respaldo nos investidores externos, os maiores entusiastas da idéia de novo mandato a Fernando Henrique. Os motivos deles são outros: querem a continuidade da política de privatizações e a garantia de que as reformas inconclusas - a previdenciária, a administrativa e a fiscal - serão realizadas nos termos mais convenientes ao processo de globalização em curso.
O que está em pauta
não é a reeleição, mas
a reacomodação de
forças políticas
A maioria parlamentar governista não é desfavorável à idéia, nem mesmo o subitamente rebelde PMDB. O que está em pauta não é a reeleição, mas a reacomodação de forças políticas para o futuro. O PMDB , partido que possui maior número de parlamentares no Congresso _ o que não significa necessariamente que seja o mais representativo da opinião pública _, não se sente tratado na proporção da importância que imagina ter. Quer mais espaços de poder.
Admite a reeleição, desde que consiga nela embarcar com assento na primeira classe, até aqui reservado ao PFL. Daí as dificuldades criadas. O mesmo se dá com o PPB de Maluf. O que está em pauta é o estabelecimento da tarifa política para o futuro.
A hora de criar dificuldades é esta. O governo neste momento precisa de cada um dos votos de seus aliados para aprovar a emenda. Depois de aprovada, o quadro se inverte: são os aliados que estarão à porta do governo, pedindo favores. Diante da barganha peemedebista, o governo acenou com o plebiscito (que também não deseja), que retiraria do Congresso o centro de decisão em torno do assunto.
Houve recuo e, agora, todos voltam a conversar. Se o assunto puder ser resolvido no Congresso, todos ficarão muito satisfeitos. Essa história de a rua nos quer é mera retórica. Ir para a rua, afinal, é também sinônimo de desemprego.





