Brasília/ Ruy Fabiano
A aprovação, ontem, da emenda da reeleição na comissão especial do Congresso, está longe de resolver o contencioso entre governo e PMDB. O ponto central do conflito continua sendo a data da votação da emenda em plenário. O PMDB a quer para depois da eleição das mesas diretoras de Câmara e Senado; o governo a quer para antes.
Não é aleatória essa divergência. Essas datas têm importância vital na luta de poder que está em curso. Se a emenda da reeleição for aprovada em plenário agora, o governo entra fortalecido na disputa sucessória das presidências de Câmara e Senado. Estará à vontade para emplacar os seus candidatos sem maiores negociações.
Se acontecer o contrário - isto é, a votação em plenário ficar para depois da eleição das mesas -, o resultado desta poderá interferir no ânimo do plenário e inviabilizar a reeleição. O governo apóia duas condidaturas, que sofrem substancial contestação, exatamente em função desse apoio: Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), no Senado, e Michel Temer (PMDB-SP), na Câmara.
O PFL, em sua maioria, está satisfeito com esse arranjo; o PMDB, majoritário nas duas casas, não. O partido se sente a reboque dos pefelistas e em posição secundária dentro do governo, incompatível, segundo o pensamento de sua maioria, com a condição de maior partido do país. Os peemedebistas não avalizam acordos de cúpula feitos por seu líder Michel Temer (cuja candidatura à presidência da Câmara não entusiasma as bancadas) e pelo ministro da Articulação Política, Luiz Carlos Santos, que é do partido.
A candidatura Íris Resende à presidência do Senado, com o apoio do senador José Sarney, é a expressão dessa rebeldia. Na Câmara, o partido prefere eleger para a presidência alguém de outro partido, como Prisco Viana (PPB-BA) ou Wilson Campos (PSDB-PE), que seu correligionário Michel Temer.
A esse ambiente de rebelião partidária soma-se a frustração de grande contingente de parlamentares - o baixo clero -, que se sente excluído do processo político, em decorrência da interferência cada vez maior do Executivo nos assuntos legislativos. O uso imoderado de medidas provisórias pelo presidente Fernando Henrique, em proporção bem superior aos que o precederam, é uma queixa generalizada.
Nesse contexto delicado, a atitude de Fernando Henrique de dar um puxão de orelhas no PMDB, na pessoa do presidente do Senado (e, por extensão, do Poder Legislativo), foi uma espécie de gota dágua, transbordando um copo que já estava cheio. A tendência do governo, daqui por diante, é afinar a voz e retomar o diálogo.





