Brasília/ Ruy Fabiano
O temor maior das lideranças governistas no Congresso ontem é de que a má condução da crise com o PMDB se transforme em algo mais abrangente: um conflito entre os Poderes Executivo e Legistativo. O clima ontem no Congresso sugeria algo parecido.
As acusações de barganha e fisiologismo dirigidas ao PMDB repercutiram mal nos demais partidos da base parlamentar do governo. Mesmo a hipótese, difundida por gente do governo, de adoção do plebiscito para a reeleição, tese defendida antes por muitos parlamentares, foi recebida com desconfiança, como um recurso para indispor o Congresso com a opinião pública. Ao governo, não convém esse conflito.
As dificuldades não são desprezíveis. Foram muitos os amadorismos políticos cometidos pelo governo. O que mais se ouvia ontem, nos corredores do Congresso, eram críticas ao comportamento inábil do presidente Fernando Henrique, ao arvorar-se em proprietário do PMDB, dando ordem unida e puxões de orelhas públicos em seus dirigentes, incluindo aí um ex-presidente da República, José Sarney, atual presidente do Senado - e por extensão, do Poder Legislativo. Por aí, eriçou-se o espírito de corpo da instituição.
Fernando Henrique, no dia seguinte à convenção, havia chamado ao Palácio a cúpula peemedebista para examinar a nova situação criada pelo partido, condenando a reeleição e recomendando que a emenda só fosse votada após a eleição das mesas diretoras de Câmara e Senado. O primeiro deslize, assim considerado pelos preemedebistas, foi a exclusão do presidente do partido, Paes de Andrade, da lista de convidados.
Foi uma retaliação ao comportamento crítico de Paes, visto como persona non grata pelo planalto. Paes, até então, buscava manter as aparências, sustentando a necessidade de manter o diálogo com o Palácio. A partir de sua exclusão, passou a desafiar o governo e a contribuir para a elevação da temperatura dos debates.
O governo foi acusado também de blefar. Exibia convicção de que já dispunha de votos suficientes para aprovar a emenda, mas, como se viu, não tinha coisa alguma. Foi posto a nu pelo PMDB. A rebeldia peemedebista acabou servindo de preâmbulo para um processo de catarse do baixo clero, a maioria anônima de parlamentares que, no dizer do deputado Prisco Viana, sente aviltado e o poder usurpado pela orgia de medidas provisórias posta em circulação pelo Executivo.
Sobravam críticas também para o presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), acusado de transformar a presidência da Casa numa sucursal do gabinete de Fernando Henrique. Luís Eduardo exercia o papel informal de articulador da reeleição, papel incompatível com o de presidente da instituição. Desde já, estão em baixa os candidatos governistas às presidências das duas Casas: Antônio Carlos Magalhães, no Senado, e Michel Temer, na Câmara. Inversamente, crescem Íris Resende (Senado) e Prisco Viana (Câmara).





