Brasília/ Ruy Fabiano
O efeito prático mais evidente da sublevação do PMDB à reeleição é o encarecimento da tarifa dos serviços políticos. O custo de adesão à emenda, desde então, aumentou substantivamente. O desarranjo causado ao cronograma do governo não será consertado a baixo custo.
Dentro da lógica do fisiologismo, deve-se criar dificuldade para vender facilidade. Nesse sentido, a ação do PMDB, além de tecnicamente impecável, extrapola os limites do partido. Os demais aliados sentem-se também no direito (e, dentro da lógica do processo, têm lá sua razão) de engrossar com o governo e rever o preço da adesão.
O governo sabe que não adianta berrar. A saída é recomeçar o corpo-a-corpo do zero. O episódio serve para demonstrar a inviabilidade de um sistema político desprovido do instituto da fidelidade partidária. Sem hora de negociar, as lideranças são referenciais precários. Até que ponto um líder fala pela bancada? O voto é livre e não há instrumentos jurídicos para punir quem contrariar a decisão da cúpula.
Num sistema partidário coerente - isto é, fundado na fidelidade e na disciplina - a decisão de anteontem do plenário do PMDB teria definido, em termos inapeláveis, a posição do conjunto do partido em relação à emenda da reeleição. Mesmo os favoráveis à emenda teriam que rejeitá-la, em nome de decisão da maioria.
Como não há fidelidade, tudo não passou de um jogo de cena, cujo efeito mais concreto é o agravamento do fisiologismo. O que está em vigor é uma recomendação da convenção, cuja desobediência passa a ter determinado custo. Em que moeda será paga, é algo que varia de interlocutor para interlocutor. Há desde a moeda política, traduzida na ocupação de espaços de poder - cargos de primeiro ou segundo escalões do governo, em geral -, distribuição de verbas para regiões de influência do parlamentar, revisão de débitos com instituições financeiras do Estado, até numerosas outras formas, difíceis de demonstrar.
Não foi por falta de aviso que o governo quebrou a cara. Há tempos, o vice-presidente Marco Maciel avisou que havia riscos em tratar da reeleição isoladamente. A proposta deveria estar embutida em algo mais abrangente, um projeto de reforma política, que, simultaneamente, tratasse da reforma eleitoral e partidária, reintroduzindo o instituto da fidelidade. Tratada à parte, a reeleição seria o que está sendo: um monumental transtorno político.
O próximo desafio é a eleição para as mesas diretoras da Câmara e do Senado. Os candidatos governistas - Michel Temer (PMDB-SP), na Câmara, e Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), no Senado - já estão com as barbas de molho. Sabem que os tiros da convenção do PMDB resvalaram neles. Ninguém está mais seguro de nada. As dissidências estão em alta.





