A crise das Polícias Militares em cinco Estados - Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, sem esquecer Minas, estopim do processo -, é subproduto da reforma do Estado, em curso. Pode-se, inclusive, dizer que é apenas o começo.
A insolvência do modelo de Estado privado, submetido ao vale-tudo político do empreguismo e de outras formas deletérias de favorecimento, não sobrevive ao ajuste exigido pelo mundo competitivo da globalização, a que o Brasil procura se amoldar.
O que as PMs vivem, em síntese, é a crise salarial, decorrência da escassez de recursos públicos. Os policiais ganham mal - em alguns casos, muito mal. Em outros, como Alagoas, simplesmente não ganham: os salários estão atrasados há meses. Os PMs, claro, não são as únicas vítimas. Os funcionários públicos de todo o país, uns mais outros menos, estão na pior, pagando caro a conta do ajuste do Estado.
Nem todos, porém, dispõem de armas e munição para cercar palácios e acuar governadores. Sofrem a crise em silêncio, extravasando-a, no máximo, na queda de qualidade dos serviços sob sua responsabilidade (o que transfere a conta para o contribuinte, absolutamente inocente na questão). O mais dramático é que não há muito o que fazer, senão o que está sendo feito. O governo federal, historicamente, cedeu à intermediação política e deixou de aplicar os remédios necessários ao ajuste de contas com estados e municípios.
Não é casual que todos os parlamentares concordem que a mais difícil das reformas, depois da reforma política (que mexe com a situação pessoal de cada político), é a reforma tributária. Ela impõe esse ajuste de contas, estabelece processos mais rígidos na aplicação de tributos. A recente CPI dos Precatórios evidenciou a zorra que é a gestão do dinheiro público no Brasil. As rubricas orçamentárias, que estabelecem para onde vai tal e qual recurso, são maquiadas rotineiramente. Muitos nem fazem isso por mal. Acham que é assim mesmo.
São métodos que passam de pai para filho, na gestão imemorial das capitanias hereditárias. Há, quanto a isso, um caso curioso, contado há uns cinquenta anos, pelo falecido crítico literário Agripino Grieco, que ilustra o padrão administrativo ainda vigente no país.
Agripino viajava pelo interior de São Paulo fazendo conferências. Em cada município a que chegava, buscava patrocínio, inevitavelmente público. Num deles, o prefeito lamentou não dispor, na rubrica orçamentária, de verbas para aquele tipo de evento.
‘‘Só tenho verba na rubrica de calamidade pública’’, disse ele. Agripino festejou: ‘‘Pode me incluir nela’’. E foi incluído. É engraçado, mas é gerencialmente letal. Um dia a casa cai.
No caso presente, o governo federal faz jogo duro, mas nem tanto: não lhe convém intervir em Alagoas, pois, nessa hipótese, a Constituição impede que haja emendas à Constituição, o que paralisaria as reformas. Há, portanto, ainda, concessões políticas.

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