Certo dia, examinando a posição de Alagoas no mapa do Brasil, Graciliano Ramos, um dos mais ilustres alagoanos de todos os tempos, fez um comentário áspero e implacável: ‘‘Eis um bom lugar para se criar um promontório’’. Foi um momento de autoflagelação.
Graciliano amava Alagoas, o que não o impedia, muito pelo contrário, de olhá-la com rigor crítico redobrado. Foi exemplo de administrador público, quando prefeito de Palmeira dos Índios.
E foi como administrador que acabou descoberto e definitivamente capturado para o mundo das letras. Um relatório administrativo seu, interiramente fora dos padrões burocráticos de então (e de sempre), chegou às mãos do editor José Olympio que teve certeza de que se tratava de um romancista. Acertou - e o resto é história.
O ponto, porém, é outro: o estigma histórico de Alagoas de protagonizar acontecimentos decisivos na história do Brasil - para o bem ou para o mal. Terra de Zumbi dos Palmares, marco de bravura e engenho social, coube a Alagoas fornecer os dois primeiros presidentes da República - Deodoro, que a proclamou, e Floriano, que a consolidou. Anos depois, foi também sobre um alagoano, Fernando Collor de Mello, que se aplicou, pela primeira vez na história, um impeachment pela via democrática.
Não há nada em Alagoas que não se encontre em todo o Brasil: clientelismo político, nepotismo, empreguismo, gerência privada do Estado, cultura da carteirada (‘‘você sobe com quem está falando?). São resíduos de um país cuja formação começou com algo chamado capitanias hereditárias. Para melhor ocupar e administrar o fazendão que descobrira, Portugal dividiu-o em capitanias e entregou-as à gerência de famílias de confiança da Corte.
Não é casual essa visão privada do que é público. As famílias que se apossaram do Brasil transmitiram essa mentalidade pelos tempos afora. Alguns Estados, que se industrializaram mais e absorveram maior número de migrantes, ficaram menos marcados que outros por aquele selo cultural de origem. Há cidades cosmopolitas, como Rio e São Paulo, onde tudo isso hoje é visto com folclore. Mas os resíduos das capitanias hereditárias estão em toda a parte - mesmo nas metrópoles.
Alagoas é uma dessas regiões que, pela lentidão do processo de urbanização, mantiveram-se fiéis a hábitos culturais anacrônicos. O breve período de Collor na presidência propiciou ao país conhecer a crueza de alguns métodos de ação política. O país não os estranhou, pois os conhece. Se os resultados econômicos tivessem sido positivos, quem sabe conviveria com eles sem maiores problemas?
Alagoas, com o colapso econômico-administrativo que vive, protagoniza mais uma vez papel emblemático para o país. Aquele modelo - econômico, social, cultural, político - simplesmente não dá. Ou o Brasil começa a dizer não àquilo ou é melhor seguir o conselho de Graciliano Ramos e transformá-lo num imenso promontório.

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