Brasília (Ruy Fabiano)
Firma-se no caso de Alagoas - e isso é positivo - jurisprudência nova, emanada da área econômica: implacabilidade na cobrança de compromissos. O governador Divaldo Suruagy não cumpriu os compromissos de saneamento econômico assumidos com o governo federal. Confiou na proverbial infalibilidade da intermediação política. Dançou.
O governo não liberou um tostão para o estado, não obstante as pressões de parlamentares em Brasília. Fernando Henrique deu mostras, neste caso, de que está quebrando esse padrão deletério de gestão do que é público, que consiste em mandar a conta da farra (estadual, municipal, eleitoral, pessoal etc.) para a viúva - isto é, o erário.
É bem verdade que o presidente teve a oportunidade de exibir o mesmo rigor antes - em relação ao Banespa, por exemplo. Há sempre, porém, a primeira vez - e deve ser saudada. Alagoas não tem a força política de São Paulo e, convenhamos, exibiu perversões administrativas incompatíveis, em volume e intensidade. Nada, porém, inédito.
Em seus discursos de campanha, Fernando Henrique mencionou numerosas vezes a necessidade de mudar a cultura política do país. A reforma cultural, que não se faz por meio de medida provisória ou de votações no Congresso, é a mais urgente - e, por isso mesmo, a mais difícil e demorada. Deu, porém, importante passo em Alagoas.
O tumor foi lancetado - e não há outro meio de se chegar à cura. O empurra-empurra da negociação política é o fermento da cultura do calote. Assumem-se compromissos que previamente se sabe que não serão cumpridos. Administra-se a irritação do caloteado com uma boa conversa, conduzida por profissionais - e eis aí uma das funções informalmente agregadas ao ofício parlamentar: gerenciar calotes.
Desta vez, não deu certo. O governo deixou a corda arrebentar. O governador Divaldo Suruagy, como é óbvio, não é o autor solitário do caos. Mas não há dúvida de que expressa fielmente a mentalidade política que o concebeu. Empreguismo desenfreado (usado como moeda eleitoral), mais uso privado do Estado (expresso nos usineiros que não pagam impostos ou dívidas com bancos estatais), mais certeza da impunidade resultaram na explosão de anteontem.
Aconteceu em Alagoas, mas, invocando a sentença bíblica, que outro estado está em condições de atirar a primeira pedra? Claro: Alagoas foi longe demais, mas a mentalidade que gerou tudo aquilo está disseminada em todo o país - em especial na base parlamentar do governo. Eis o dilema maior de Fernando Henrique: modernizar o país (sobretudo sua mentalidade política), cercado de dinossauros por todos os lados. Suruagy e todos os seus aliados federais, convém não esquecer, integram a base política do governo Fernando Henrique.
A sinalização, agora, é outra (espera-se). O governo só cedeu após a saída de Suruagy. Mesmo assim, recusa-se ao paternalismo. Pedro Parente, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, diz que os recursos que estão indo agora para Alagoas são apenas adiantamento. O estado os devolverá com a privatização de sua companhia energética. Que a causa da reeleição não corrompa esse princípio.





