A candidatura Fernando Henrique padece de um paradoxo: tem a força e a fragilidade do Plano Real. Quando a estabilidade do Plano é posta em dúvida - e a queda das bolsas, anteontem, é um exemplo -, a candidatura perde parte substantiva de seu apelo. É como um pêndulo.
Por aí, dá para imaginar o desespero que tomou conta das lideranças políticas do governo quando o índice da bolsa de São Paulo começou a despencar. O governo sabe que o Plano Real sustenta-se em pilares ainda frágeis. A hipótese de crise cambial, absolutamente nefasta, não é uma abstração. É claro que há meios de evitá-la e trabalha-se nessa direção. Mas há os fatores imponderáveis, cada vez mais ponderáveis.
Ninguém nas bases do governo, como é óbvio (ou talvez não seja tão óbvio), torce pelo insucesso do Plano Real. Mas há quem leve isso em consideração e se coloque, desde já, em condições de se oferecer como alternativa conservadora para a hipótese de uma sucessão sem Fernando Henrique. Quem pensou em José Sarney e Paulo Maluf, por exemplo, não pensou errado.
A verdade é que Fernando Henrique é candidato imbatível caso a travessia do Real seja garantida até outubro do ano que vem. As próprias oposições o admitem. Só há duas hipóteses de colapso de sua candidatura: um dano moral inapelável à sua imagem ou o fiasco consumado do Plano Real e (por extensão) o descontrole do processo econômico.
A primeira hipótese andou rondando na denúncia de compra de votos para a reeleição. O ministro Sérgio Motta, o mais próximo do presidente, chegou a ser citado nas fitas - e em circunstâncias passíveis de apuração concreta (concessão de canais de rádio e televisão, mencionada pelos acusadores). Mas o caso foi politicamente encerrado.
Quanto ao real, as margens de risco a que está exposto não dependem de conchavos políticos. A instabilidade, por exemplo, do ringgit, moeda da Malásia, é um desses efeitos colaterais ainda não inteiramente diagnosticados do processo de globalização. Desse estresse, o presidente só se livra em 3 de outubro de 1998 - e olhe lá.
Itamar Franco - O ex-presidente Itamar Franco esclarece que, diferentemente do que foi dito nesta coluna, sábado passado (‘‘Itamar versus Sarney’’), não presidiu a CPI da Corrupção no governo Sarney. O presidente foi o senador José Inácio e o relator, o deputado Carlos Chiarelli. Itamar foi vice-presidente.
Mais: por discordar das conclusões do relatório, que pedia o impeachment de Sarney, não o assinou. Ele e o então senador Severo Gomes foram os dois únicos membros da CPI que tiveram essa atitude, por considerarem as provas insuficientes. Sob essa alegação, o relatório foi arquivado pelo deputado Inocêncio Oliveira.
A essência, porém, do que aqui foi dito não foi contestada: Itamar foi convidado por Collor para companheiro de chapa na sucessão presidencial de 1989 por sua imagem de crítico do governo Sarney. E essa circunstância, claro, não favoreceu o relacionamento pessoal entre ambos, naquele momento. Hoje, cogitados por diferentes facções do PMDB como alternativas à sucessão, têm um amigo comum que garante que vai tudo muito bem entre eles: Henrique Hargreaves.

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