A reeleição já mudou o metabolismo do governo. Até segunda ordem, a lógica tecnocrática, que tanto seduz o presidente, está revogada. Exemplo típico dessa metamorfose é a reviravolta em torno da medida provisória das viúvas - aquela que proibia acumulução de pensão e aposentadoria -, obra-prima da sensibilidade tecnoburocrática e que ameaçou colocar a terceira idade do país em pé de guerra.
O governo recuou quando soube que viúvas de todo o país, organizadas pela Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas, planejavam um rito politicamente mortal: subir a rampa em comitiva e desfechar furiosas bolsadas de protesto na cara do presidente.
Estavam determinadas a cumprir esse rito a qualquer preço, segundo chegou a declarar a uma rádio a presidente da Confederação, Maria Machado Cota. A CUT estava excitadíssima com essa hipótese. Quem deteria viúvas indignadas na subida da rampa? Os PMs de Diadema? Fernando Henrique foi advertido a tempo e revogou a MP, que fontes do Supremo Tribunal Federal já avisavam que era inconstitucional.
Diante das alternativas concretas que lhe foram postas - a bolsada implacável e de desastroso efeito moral ou a responsabilidade pela inevitável ação repressiva da polícia sobre as viúvas -, o presidente recuou. Constatou que os tecnocratas, adeptos do racionalismo implacável, baseado em números, nem sempre têm razão.
Efeitos da reeleição. No caso, um efeito positivo. O governo Fernando Henrique, embora nem sempre pareça, é de índole tecnocrática, não política. Os políticos, em regra, são vistos como obstáculos no caminho das propostas tecnocráticas. Não são tratados como representantes da população, cujas idéias e críticas mereçam efetiva consideração por parte dos técnicos, infalíveis em seus veredictos.
A parte sadia da política - a gerência pacífica de interesses sociais conflitantes - não conta. São uns chatos. O governo não negocia idéias; negocia interesses. Político fisiológico é aquele que não tem idéias: tem interesses. Dá-se então o casamento perfeito: da tecnocracia com o fisiologismo político. O lema do fisiológico é um só: criar dificuldades para vender facilidades.
Por aí, tem-se a síntese perversa do que tem sido o governo Fernando Henrique, em que os técnicos concebem, decidem e cobram - e o Congresso, mediante ampla negociação (e põe ampla nisso), aprova. O contribuinte, claro, paga a conta.
No caso da MP das viúvas, prevaleceu o instinto de sobrevivência das lideranças políticas mais próximas do presidente. A reeleição é, neste momento, a meta prioritária. Há numerosas iniciativas de alcance popular - uma espécie de varejão da simpatia - previstas para serem desovadas daqui até as eleições.
Até que o objetivo seja alcançado - a reeleição -, a visão tecnocrática estará sob a supervisão implacável dos políticos.

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