A inserção do senador José Sarney no processo sucessório, via PMDB, tranquiliza o presidente Fernando Henrique pelo menos quanto a um ponto: a candidatura Itamar Franco. O grande receio de Fernando Henrique é de que Itamar viesse a ser lançado candidato pelo PMDB.
A hipótese não está afastada, mas o surgimento do nome de Sarney (que está excitadíssimo com o assunto) cria um forte complicador para o próprio PMDB e aumenta as chances de composição e barganha política para Fernando Henrique.
A mosca azul da sucessão já picou Sarney. É improvável que venha a ceder para uma eventual candidatura Itamar, que sequer está formalmente filiado ao partido. Itamar, por sua vez, jamais admitiria estar a reboque de Sarney, com quem mantém confusas relações pessoais.
Convém não esquecer que o então senador Itamar Franco presidiu, no governo Sarney, uma CPI da Corrupção, que findou por pedir o impeachment do presidente da República (o relator foi o senador José Ignácio, hoje no PSDB). Foi na condição de presidente daquela CPI que Itamar foi convidado por Fernando Collor de Mello para integrar como vice sua chapa de candidato à presidência.
Collor queria fixar sua imagem de anti-Sarney - e nada melhor que ter como partner o presidente da CPI que quis o impeachment do rival. Claro, tudo isso passou. Quem acabou recebendo impeachment dois anos depois foi o próprio Collor, com o apoio de Sarney e Itamar, que jamais voltaram a conversar sobre aquela remota CPI, arquivada por acordo político.
O fato é que a queda de braço entre Itamar e Sarney é um trunfo estratégico para Fernando Henrique. Enquanto os dois se digladiam, perdem forças e dividem o partido. O presidente do PMDB, Paes de Andrade, prefere Sarney e trabalha por sua candidatura. Foi ele, inclusive, o primeiro (depois, claro, do próprio Sarney) a aderir à idéia, lançada por Orestes Quércia. Aposta, porém, num acordo com Itamar.
É improvável. Acordo por acordo, há mais vantagens, tanto para um como para o outro, em conversar com Fernando Henrique. O que Sarney pode oferecer a Itamar, em troca de apoio? E vice-versa? Fernando Henrique tem o que oferecer a ambos - e já ofereceu: para Sarney, apoio à reeleição de Roseana Sarney ao governo do Maranhão; para Itamar, apoio ao governo de Minas. Esse apoio é mercadoria segura, concreta, palpável. Já o acordo entre Itamar e Sarney, até prova em contrário, dá-se em torno de algo extremamente remoto, que é a hipótese de triunfo na eleição presidencial.
Outra chance posta a Itamar vem pelo PT. Lula tem dito que é importante trazer Itamar para uma candidatura única das oposições. Mas há aí alguns complicadores. Lula quer que essa candidatura única seja dele mesmo, Lula - e Itamar, óbvio, não quer ser vice, nem mero homologador do processo. Como se não bastasse, os radicais do PT não querem Itamar e nem sabem direito se querem mesmo Lula.

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