Brasília (Ruy Fabiano)
O presidente Fernando Henrique Cardoso preocupa-se com a hipótese de uma candidatura alternativa no campo conservador, que ameace sua hegemonia. Empenha-se em reproduzir o cenário sucessório de 1994: ele de um lado, Lula de outro.
Dispõe de projeções, baseadas em pesquisas, que lhe garantem amplo favoritismo, consumando-se essa hipótese. Não foi por outro motivo que se expôs recentemente aos protestos do PSDB e conversou com Paulo Maluf e Itamar Franco sobre sucessão.
Ambos, disputando a sucessão presidencial, ameaçam a reeleição. Dividem os votos conservadores e de centro e provocam o risco de um segundo turno. Confinando ambos às disputas estaduais, Fernando Henrique pode voltar a sonhar com o cenário de 1994 - ele e Lula.
Há, porém, riscos concretos de o cenário não se reproduzir. E um desses riscos tem nome, jaquetão e amplos bigodes: José Sarney. Também ele dispõe de dados que lhe garantem chances de emplacar a sucessão. Em algumas pesquisas, Sarney, mesmo sem ter se lançado candidato a nada, vem logo atrás de Lula, que é candidato desde sempre.
Isso, claro, não poderia deixar os adversários conservadores de Fernando Henrique indiferentes. Orestes Quércia, por exemplo. De posse de dados que mostram o potencial eleitoral de Sarney, está empenhado em convencê-lo (a tarefa, diga-se, não é difícil) a entrar em cena e provocar um segundo turno.
Quércia é o mesmo que, em 1994, inviabilizou a candidatura presidencial de Sarney pelo PMDB, quando todas as pesquisas davam ao ex-presidente ampla dianteira. Sarney ficou uma fúria, rompeu com Quércia e acompanhou frustrado o triunfo de Fernando Henrique e a massacrante derrota de Quércia (que perdeu para o Enéas).
Mas isso, claro, são águas passadas. Em política, o que vale é o presente - em alguns casos, o instante. Não se discute o passado com quem está, ainda que circunstancialmente, na mesma trincheira, atirando contra o mesmo inimigo. O inimigo, no caso, é Fernando Henrique. Quércia assim o vê - e assim é visto por ele.
Sarney nem tanto. Tudo depende do que está em pauta. E o que está em pauta, neste momento, é uma palavra mágica, que desequilibra o metabolismo de qualquer político: poder. Sarney tem dito, sem maiores reservas, que não descarta a hipótese de uma candidatura presidencial ano que vem.
Diz mais: que, se Fernando Henrique pensa em reproduzir o cenário polarizado de 1994, que lhe permitiu vencer já no primeiro turno, está enganado. O momento é outro e a hipótese de segundo turno é a mais provável. Só não diz ainda que está empenhadíssimo em provocá-la.
Não é por outro motivo que Fernando Henrique preocupou-se em colocar Íris Resende, que não tem nem cacoete de jurista, no Ministério da Justiça. Íris é liderança forte no PMDB, é amigo de Sarney e pode ao menos ser um fator de confusão nesse processo.





