O dado evidente nos escândalos em que estão envolvidos neste momento alguns governantes é que os riscos de punição não decorrem propriamente do que fizeram, mas da circunstância de possuirem ou não maioria política nas respectivas assembléias. Não se trata de discutir o mérito do que fizeram - até porque não há mérito no que fizeram.
Culpa ou inocência, no caso, tornaram-se meros detalhes. O que diferencia basicamente a situação do governador de Santa Catarina, Paulo Afonso Vieira, do de Pernambuco, Miguel Arraes, ambos acusados do mesmo crime de responsabilidade pela CPI dos Precatórios, é que um está em minoria na Assembléia Legislativa e o outro, não.
Arraes é majoritário. Por isso, não teme o impeachment. Paulo Afonso é minoritário. O impeachment, pois, seria inevitável. Seria porque ele já tomou providências que podem revertê-lo. Primeiro beneficiou-se de decisão do Supremo Tribunal Federal que impede que deixe o cargo antes da conclusão do processo de impeachment.
Respaldado por essa decisão, não perdeu tempo: está providenciando reforma em seu secretariado, de modo a contemplar os principais partidos na assembléia legislativa. Fernando Collor fez o mesmo, quando se sentiu encurralado: reformou o ministério. Não deu certo, porém. A opinião pública já estava mais que mobilizada para derrubá-lo e os partidos não se sensibilizaram com os espaços oferecidos.
No caso de Santa Catarina, pode funcionar. Muito embora entre os inimigos de Paulo Vieira estejam dois caciques nacionais do PFL - o senador Vilson Kleinubing e o ex-governador Jorge Bornhausen -, há gente na cúpula do partido, como Antônio Carlos Magalhães, presidente do Senado, que não exibe entusiasmo pela causa. ACM aplaudiu a decisão do STF, que deu chance de sobrevida a Paulo Afonso.
Ele parece ser o único dos governadores envolvidos em denúncias a correr algum risco. Os demais parecem à vontade. Tal como Arraes, o governador de Alagoas, Divaldo Suruagy, possui sólida maioria na Assembléia. Está livre. Os governadores Amazonino Mendes (AM) e Orleir Cameli (AC), acusados de comprar votos na Câmara para a aprovação da emenda reeleição, não cultivam o mais remoto receio.
A comissão de Sindicância da Câmara, instalada para apurar as denúncias-confissões dos então deputados João da Maia e Ronivon Santiago (que renunciaram para não ser cassados), recomendou que as assembléias legislativas respectivas abrissem processos contra os governadores acusados. A Comissão de Constituição e Justiça, idem.
Mas, claro, isso jamais esteve em pauta. O dado concreto não é o indício ou mesmo a evidência de culpa. A questão é estatística. Havendo maioria contrária na Assembléia, caso de Santa Catarina, estabelece-se imediata demanda por justiça. Havendo maioria favorável, aciona-se a fábrica de pizzas. Nesses termos, independentemente do que tenha praticado ou deixado de praticar o governador de Santa Catarina, sente-se que desempenha o clássico papel do bode expiatório.

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