Embora não se comprometa publicamente com a idéia do Congresso Revisor a partir da próxima legislatura, sabe-se que o presidente Fernando Henrique é simpático à causa. Não desconhece que há poderosas resistências à idéia dentro e fora do Congresso. Daí sua cautela.
Do lado de dentro, há a resistência fisiológica, que vê na iniciativa perda de poder de pressão. Livre da exigência dos três quintos, o governo não mais precisaria ceder às demandas da porção clientelista de sua base.
Do lado de fora, há a resistência corporativista, empenhada em impedir reformas que ameacem privilégios. O quorum de três quintos e a inexistência de fidelidade partidária (que descompromete o parlamentar de quaisquer vínculos com o programa de seu partido) facilitam a vida de corporativistas e clientelistas - e dificultam a do governo.
Nem tudo, porém, é fisiologismo. Muita gente boa, dentro e fora do Congresso, se opõe a nova revisão constitucional por razões respeitáveis. Teme-se que tal expediente banalize a Constituição e abra precedentes para que, a cada novo presidente, deflagre-se processo similar. Em vez de os governos adaptarem seus programas à ordem constitucional, esta é que passaria a adaptar-se ao ideário e às conveniências do presidente de plantão.
Nada menos seguro para o processo democrático que tornar a Constituição um periódico. A cada quatro ou cinco anos, estabelece-se sua revisão, com quorum simplificado de maioria simples e em regime unicameral. Por aí, quem sabe, tem-se a cada legislatura um país diferente. Um presidente parlamentarista, por exemplo, promove a adoção do regime de Gabinete e é sucedido por outro que faz o inverso.
É claro que as lideranças do governo juram que não é disso que se cogita. Quer-se apenas fazer no próximo governo (que nenhum deles tem dúvida de que será novamente de Fernando Henrique) o que não foi possível fazer no governo anterior, quando a revisão, prevista pelos constituintes, foi abortada por fatores inusitados: o impeachment de Collor e a CPI dos anões do Orçamento.
O Congresso tornou-se, naquela oportunidade, presa fácil do lobby corporativista e acabou deixando escapar oportunidade preciosa para promover as reformas e os ajustes necessários. Dentro do quorum de três quintos, como tem sido demonstrado, não há grandes chances, a menos que se recorra ao fisiologismo.
A alternativa está na reforma política, cujo timing o governo Fernando Henrique perdeu: teria que ser feita nos cem primeiros dias após a posse, circunstância em que o Congresso nada nega ao presidente recém-eleito. Na reforma política, restaura-se a fidelidade partidária, adota-se o voto distrital misto, concerta-se a representação proporcional na Câmara (na atual, o voto de um eleitor de Roraima equivale ao de 15 paulistas) e impede-se a representação parlamentar de legendas de aluguel. Sem isso, tudo continua como está.

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