As projeções eleitorais com que lida o presidente Fernando Henrique indicam que, a menos que uma catástrofe política sobrevenha para o governo, sua candidatura é, de longe, a favorita. Apesar de todos os pesares, a maioria da opinião pública ainda prefere a estabilidade do Plano Real a qualquer outro tipo de proposta.
Não quer dizer, porém, que o presidente deva manter-se indiferente ao processo. A presença de uma ou mais candidaturas de personagens oriundos de sua base política - por exemplo, Itamar Franco, José Sarney ou Paulo Maluf - poderia forçar um segundo turno, aumentando consideravelmente o nível de exposição e desgaste do governo.
Paulo Maluf, por exemplo, o mais cotado dos presidenciáveis - chegou a obter 30% das preferências, em recente pesquisa, apesar do nível de exposição negativa decorrente da CPI dos Precatórios -, seria um fator de sangria eleitoral. Itamar, segundo o próprio presidente, causa embaraços pessoais, pela luta doméstica que deflagra. E Sarney (que neste momento está fora de foco, mas não de combate) é uma síntese de ambos. Enfrentá-los seria comprometer parcela importante de energia e votos, que seriam capitalizados pela oposição.
Para Fernando Henrique, a polarização sucessória é o cenário ideal. Significa a possibilidade de reedição da sucessão passada, resolvendo-se a disputa no primeiro turno. Mantendo-se sua base política unida em torno de seu nome - e mantendo-se o Plano Real estável -, é o que indicam as projeções eleitorais em mãos do presidente.
Lula, por mais paradoxal que pareça, sonha com o mesmo cenário de polarização. Ainda que não propicie sua vitória, favorece a eleição de uma bancada mais expressiva do PT e dos partidos de oposição a ele coligados. Polarização divide o bolo eleitoral em dois - e a fatia que sobra é sempre expressiva. O PT acredita que, por maior que seja o favoritismo de Fernando Henrique, a goleada não será como em 1994, quando a imagem do presidente estava novinha em folha e o Plano Real, recém-editado, era uma febre nacional.
O desgaste experimentado pelo presidente, no exercício do poder, pode não impedir sua eleição, mas aumenta a faixa de contrariados, dispostos a votar na oposição. Isso fortalece não apenas a bancada federal, mas também as estaduais do PT, ampliando sua estrutura e fortalecendo a liderança interna de Lula, como elo de ligação entre as numerosas correntes e sublegendas do partido.
Do ponto de vista da oposição, a hipótese de marchar unida jamais esteve tão próxima. Brizola, que sempre rachou com Lula as forças de oposição, tornou-se, segundo tem dito, ‘‘conselheiro e cabo eleitoral’’ do presidente do PT. A adversidade, como se vê, faz coisas inacreditáveis.
Do lado do governo, o desafio é maior: Itamar e Maluf são contenciosos políticos que não se esgotam em si mesmos. O presidente, para acertar com eles, se desacerta com outros aliados. Está em busca da mágica que permita contentar a todos. Esse o seu desafio.

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