EditorialBrasília, povo e ordem
A idéia de se construir uma Capital para o Brasil no centro geográfico do país é antiga, era diretriz inclusive contida na primeira Constituição republicana. E se embasava em uma premissa correta: um país de dimensões continentais precisava aproveitar todo o seu potencial. Por 400 anos, o Brasil praticamente só existiu na faixa litorânea. Com uma Capital estrategicamente colocada na região central do País haveria amplas condições de garantir este tão necessário crescimento. Contudo, foi só no final dos anos 50 que um presidente, Juscelino Kubitschek de Oliveira, teve a coragem (e, para muitos, a insensatez) de realizar a obra, construindo Brasília. A inauguração da nova Capital, em 21 de abril de 1960, foi uma festa. O Brasil vivia uma época de euforia. JK havia realizado uma verdadeira revolução industrial e com Brasília marcava de vez sua passagem.
Se a teoria era correta, na prática as coisas não funcionaram tão bem. O Brasil continuava a ser um gigante sem condições. As comunicações eram precárias, as estradas, inseguras, Brasília ficava longe demais, nem mesmo os membros do Congresso tinham satisfação em ir para lá, preferindo naturalmente as ondas e as areias do Rio, que por muito tempo permaneceu como uma espécie de capital não oficial do País. Pior foi que a distância e o isolamento, além de um clima muito diferente do agradável calor carioca, acabaram criando uma situação complicada. O Brasil passou a existir em duas dimensões: havia o Brasil real, que trabalhava, lutava, enfrentava dificuldades, que era todo o país; e havia a Capital, muitas vezes chamada ‘ilha da fantasia’, até fora de sintonia com o restante do Brasil.
O tempo passou, o Brasil cresceu, as comunicações se tornaram fartas e confiáveis, as estradas melhoraram e os brasileiros descobriram Brasília, começaram a ir para a Capital a fim de reclamar, pedir, pressionar, até. Estiveram no Congresso bradando pelas ‘diretas’, voltaram lá para pedir a cassação de Collor de Mello e continuam indo. Mas Brasília, ou melhor, o governo, não aprendeu a conviver com isto, com a realidade, com o povo - que, afinal, conforme a Constituição, é o dono do poder - que se manifesta, protesta e exige. Nestes dias, Brasília está sendo palco de muitas manifestações. Há dois dias, foram quase 2 mil prefeitos e vereadores; ontem, alguns milhares de manifestantes promoveram a Jornada de Luta por Emprego e Direitos Sociais, organizada por mais de 40 entidades e centrais sindicais. E já há pelo menos mais duas manifestações programadas para acontecer lá mesmo, na Capital do País: a 25 de julho, no Dia do Agricultor, e a 7 de setembro, quando será realizado o Grito dos Excluídos. É a população descobrindo a Capital.
Mas os conflitos ocorridos ontem, cuja origem é controversa - os manifestantes dizem que queriam apenas instalar um carro de som diante do Congresso; a PM alega que precisou agir para evitar a invasão daquele edifício -, impõem a necessidade de um apelo à ordem. Manifestações, sim, desde que tenham caráter pacífico e seus participantes ajam de acordo com as regras da civilidade. A democracia pressupõe o direito de ir e vir e de expressar opiniões; a desordem, tenha ela a motivação que for, não pode ser tolerada. O pretexto que levou os manifestantes ontem à Praça dos Três Poderes - o índice crescente de desemprego - é mais do que compreensível. Não se pode admitir, no entanto, que uma manifestação originariamente pacífica se converta num embate físico, sob qualquer pretexto. Os problemas nacionais são imensos. Os distúrbios ocorridos ontem só contribuem para agravá-los.

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