Brasília não é Nova York - Kido Guerra
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de agosto de 1998
Kido Guerra 
Definitivamente, Brasília deixou de ser aquela ilha de tranquilidade que dava à população a ilusão de estar imune à violência que aterroriza a maioria das capitais brasileiras. Sequestros relâmpagos à luz do dia, assaltos com desfechos trágicos, homicídios e tentativas de homicídio já fazem parte do dia-a-dia do brasiliense.
A violência no Distrito Federal, porém, não é nenhuma novidade. Ela sempre esteve presente no cinturão de pobreza. A novidade é que a classe média, confortavelmente instalada no Plano Piloto e lagos Sul e Norte, e algumas cidades-satélites, tornou-se alvo fácil e anda apavorada e insegura.
Em ano eleitoral, o tema ganha proporções ainda maiores, assim como aumentam a cada dia as cobranças da população ao atual governo do Distrito Federal, que aparentemente tem dificuldades em conter a onda de violência. O governador Cristóvam Buarque não tem como meta, nem agora nem num eventual segundo mandato, coibir a violência apenas com o aumento do número de policiais e viaturas, enfim, do aparato repressivo. Ele prefere atacar a origem da violência, como o desestímulo à migração e a inserção social dos excluídos.
O senador José Roberto Arruda, candidato do PSDB, aposta na redução do elevado índice de desemprego para diminuir a violência: são cerca de 160 mil pessoas desempregadas no Distrito Federal, quase 10% da população.
Já o ex-governador Joaquim Roriz, em cujo governo houve um grande aumento da população do DF como consequência da política de concessão indiscriminada de lotes, sem geração de empregos para absorver o grande contingente de migrantes, aposta na repressão.
Roriz, com o seu Programa Segurança sem Tolerância, foi buscar inspiração no Projeto Tolerância Zero, criado pelo prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, que de fato reduziu a criminalidade na metrópole. Com um detalhe: o projeto se concentra na parte nobre de Manhattan, exatamente aquela visitada anualmente por milhões de turistas de todo o planeta. A periferia nova-iorquina continua violenta e perigosa.
Curioso é que não se trata de um projeto pessoal do ex-governador. Em São Paulo, o ex-prefeito Paulo Maluf tem proposta semelhante. Não é mera coincidência o fato de que ambos estão assessorados pelo marqueteiro Duda Mendonça, que tentou convencer outros clientes a adotar, na atual campanha, o mesmo projeto. Nesse aspecto, o programa de Roriz, que visa a coibir com rigor os pequenos crimes, parece mais uma peça de marketing eleitoral do que projeto de governo.
Há uma dúvida em relação à proposta de Roriz para conter a violência no DF: num país onde a polícia é despreparada e arbitrária, e onde a execução de infratores ou suspeitos de infração é premiada com medalhas e aumento de salários, como será interpretado pelos policiais um projeto que preconiza a total ausência de tolerância? Liberdade para matar?
Violência urbana se coíbe, sim, com rigor e repressão ao crime, especialmente quando ela atinge níveis alarmantes, como os atuais, mas deve ser combatida acima de tudo com prevenção. Nesse sentido, o melhor método para prevenir a criminalidade é dar educação, emprego, salário, dignidade e cidadania à população. Como, aliás, já acontece em Nova York.
- KIDO GUERRA é jornalista em Brasília


