Brasília / Ruy Fabiano
O ministro das Comunicações, Sérgio Motta, submetido sexta-feira a uma cirurgia odontológica, em São Paulo, passará o período carnavalesco exercitando compulsoriamente uma das atividades em que é menos versado: o culto ao silêncio (que, no seu caso, nada tem de obsequioso, muito pelo contrário).
Antes de sair de cena, Motta, como se sabe, deixou o presidente Fernando Henrique mais uma vez embaraçado nas malhas de seu verbo devastador e inadministrável. O ministro disse, salivando adrenalina, que iria destruir o governador do Paraná, Jaime Lerner, do PDT, um dos políticos mais respeitáveis e reconhecidos do país.
O motivo? Lerner, no mais elementar exercício de sua cidadania e direitos políticos, manifestou-se contra a reeleição de Fernando Henrique. O governador admite o princípio da reeleição, mas acha que não deve ser aplicado aos atuais governantes, que, segundo pensa, devem estar submetidos às regras pelas quais foram eleitos.
O argumento é discutível, na medida em que a Constituição estabelece período mínimo de carência de um ano para que modificações na legislação eleitoral entrem em vigor. Se a reeleição está sendo votada com dois anos de carência, o princípio da anterioridade está sendo respeitado. Por aí, não parece haver problemas.
Seja como for, Lerner pensa dessa maneira e esse é um direito legítimo seu. Como o governador paranaense, apesar de pertencer a um partido de oposição, o PDT, tem sido, desde o início do governo, simpático a Fernando Henrique - apoiou-o, inclusive, na campanha eleitoral, contra o líder de seu partido, Leonel Brizola -, sua argumentação surpreendeu. E, claro, decepcionou os governistas.
Ao declarar, porém, que iria destruir, Motta não apenas atropelou as mais elementares normas de decoro político, como deixou claro que é adepto da estratégia de retaliação, rotineira nos regimes autoritários e fisiológicos, mas incompatíveis com os fundamentos éticos da democracia. Fernando Henrique sentiu-se de tal modo constrangido com o gesto de seu ministro que teve que acionar o porta-voz Sérgio Amaral para as explicações de praxe (aquelas que não explicam nada).
A única coisa que Amaral pode dizer, buscando uma saída bem-humorada para a gafe do ministro, é que o presidente tem certeza de que Motta não vai destruir Lerner coisíssima alguma. O governador do Paraná, porém, não vê o episódio de maneira tão esportiva e superficial. Teme que seu Estado seja vítima, a partir de agora, da má vontade federal, nas relações administrativas com os ministérios, que envolvem repasses de verbas, programas e convênios. Não é um temor infundado.
É, ao contrário, a lógica clássica do processo fisiológico, em que votos e atitudes derivam não de convicções, mas de interesses clientelistas. Nesse sentido, Jaime Lerner tem sido um personagem singular, pois consegue simultaneamente indispor-se com o governo e a oposição, em defesa de suas convicções. Um político estranhíssimo.





