Brasília / Ruy Fabiano
A vitória do governo na Câmara, ontem, com a eleição de Michel Temer (PMDB-SP) para a presidência da Casa, contou, mais uma vez, com a escandalosa desarticulação das forças adversárias.
O rolo compressor não exibiu a eficácia da véspera, no Senado, quando a candidatura Antonio Carlos Magalhães venceu por folgada maioria (52 a 28). A Câmara, ontem, dividiu-se ao meio. A soma dos votos dissidentes, dados às candidaturas Wilson Campos e Prisco Viana, mais os votos brancos e nulos, totalizaram 247 votos, contra 257 do candidato governista - apenas dez a mais.
A lógica dos números indica que, se houvesse um mínimo de estratégia por parte das candidaturas desafiantes, uma composição que as unificasse, o resultado poderia ter sido outro. Mas não houve, como não há. E aí está a sorte - e a fragilidade - do governo: a desarticulação oposicionista. Não há oposição - e, sem ela, perde-se o referencial de erros e acertos e governa-se com margem maior de risco. A unanimidade, advertiu Nélson Rodrigues, é burra.
A Câmara continua sendo a instância mais problemática para o governo, o foco das contestações mais incômodas no âmbito das relações com o Legislativo. Mantido, porém, o controle palaciano sobre sua direção, não há, a rigor, o que temer (o trocadilho é acidental, mas oportuno). É absolutamente improvável que a votação da emenda da reeleição em segundo turno, na Câmara, com o voto aberto e declarado, ofereça algum risco. No Senado, nem pensar.
Se Fernando Henrique passou pelo teste do voto secreto - onde, segundo Tancredo Neves, o contato indevassável e solitário com a urna dá uma irresistível vontade de trair -, aparentemente, tornou-se imbatível. Tudo isso é verdade, mas nem tudo são flores. Os números de ontem mostram que a Câmara não está disposta a alinhamentos automáticos. Não haverá confrontos, mas cada votação tende a custar tão ou mais caro que a anterior. A anarquia partidária favorece o esquema do balcão de negócios. Não há fidelidade e, portanto, não há como exigir que parlamentares que integram a coalizão governista garantam previamente apoio. Cada votação abre novo processo de negociação.
A história da emenda da reeleição é uma evidência disso. Não seria possível aprová-la sem os votos do PMDB, cuja convenção nacional recomendou a rejeição da proposta. A bancada peemedebista transformou essa recomendação num fator de elevação do custo da adesão. O rolo compressor governista topou a sobretaxa e a emenda foi aprovada.
O principal partido do país acabou desmoralizado em sua mais alta instância decisória - o plenário de sua convenção nacional. Temer fez exatamente o contrário do que a convenção mandou: empenhou-se em antecipar a votação da reeleição antes da data recomendada por seu partido (15 de fevereiro) e votou favoravelmente à emenda. Foi execrado, mas foi eleito, embora por margem estreita. O governo mantém seu controle sobre a Casa, mas há feridas abertas.





