Brasília / Ruy Fabiano
O triunfo de Fernando Henrique na primeira batalha da reeleição reacendeu nas oposições o sentimento de impotência e frustação. A rigor, não há oposição. Há grupos e personagens que, por razões nem sempre nítidas - e nem sempre louváveis -, opõem-se ao governo. Não conseguem, porém, articular-se para uma ação conjunta e eficaz.
No caso específico da emenda da reeleição, os desafios jamais estiveram na oposição. Em nenhum momento, PT, PDT ou PC do B, por exemplo, sugeriram a mais remota ameaça ao governo.
As divergências e dores de cabeça vividas pelo presidente até a véspera da votação procediam todas de sua própria base política. Foi desafiado pelo PMDB, um aliado, que, em convenção, condenou a data de votação da emenda e a emenda propriamente dita.
Foi desafiado pelo PPB, de Paulo Maluf, outro aliado, que, por meio do deputado Prisco Viana (BA), desafia a candidatura palaciana de Michel Temer à presidência da Câmara. Essa candidatura tem outro desafiante aliado, o deputado tucano Wilson Campos (PE). São os paradoxos da unanimidade. A impotência oposicionista é de tal ordem que o PT, historicamente avesso a alianças, desistiu de brigar em espaço próprio e considera a hipótese de apoiar a candidatura de Prisco Viana.
O governo Fernando Henrique, por circunstâncias que vão além da competência e reputação do presidente, reina sem desafiantes à altura. O colapso do socialismo esvaziou o discurso ideológico e liquidou o charme dos partidos de esquerda. O processo de globalização da economia obriga os sindicatos a ações mais pragmáticas, que lhes reduzem o conteúdo ideológico e alinhamento automático com a oposição.
O quadro é complexo e não há lideranças políticas de expressão nas oposições em condições de revertê-lo a curto prazo. Não faltam pontos polêmicos no governo Fernando Henrique. O processo de privatizações - sobretudo de megaempresas como a Vale do Rio Doce - é um deles. A própria reeleição é tema de enorme delicadeza. Nenhum deles, porém, até aqui, conseguiu unificar as correntes que divergem do governo e dar-lhes ação consistente - e convincente.
O governo Fernando Henrique conversa com o próprio umbigo. E é nesse circulo estreito em torno de si mesmo que se dão as divergências e as convergências. Não há massa crítica efetiva. As divergências, quase sempre, têm caráter fisiológico. As convergências, idem.
O governo, por omissão oposicionista, conseguiu passar para a opinião pública, como verdade inquestionável, a tese de que a continuidade do Plano Real e de suas conquistas depende da reeleição do atual presidente. Não é uma realidade, claro, mas ninguém conseguiu prová-lo. Para o país - e para o próprio governo -, a inexistência de oposição é nociva. Sem ela, o governante priva-se de visão crítica. Nada mais perigoso que governar apenas com os olhos dos áulicos.
É esse o calcanhar-de-aquiles das ditaduras - e é esse o paradoxo maior da unanimidade.





