Brasília / Ruy Fabiano
PMDB e PPB saem chamuscados da aprovação em primeiro turno da emenda da reeleição. Ambas as cúpulas partidárias, que prometeram barrar a emenda, foram derrotadas pelas bancadas. O presidente do PMDB, deputado Paes de Andrade, foi atropelado em sua autoridade.
Idem à convenção nacional, que há duas semanas votou duas moções em sentido inverso ao comportamento da bancada em plenário. Prevaleceu o instinto chapa-branca, que mantém o PMDB no poder desde o governo Sarney. Uma das moções aprovadas pela convenção nacional peemedebista condenava a votação da emenda antes de 15 de fevereiro; a outra condenava, no mérito, a reeleição.
Fernando Henrique passou com o rolo compressor por cima de ambas. Nada de novo: trata-se de apenas mais um capítulo das relações do governo com sua eclética base parlamentar. Não havendo fidelidade partidária, nenhuma importância tem o que dizem cúpulas e convenções dos partidos. São apenas frases de efeito, destinadas a encarecer as negociações em torno de determinada medida. O ex-governador Orestes Quércia, furioso com a derrota, prometia enquadrar os infiéis e expulsá-los do partido. Com base em quê? Não há nenhum instrumento legal para isso. Paulo Maluf também fará seu jogo de cena, mas ficará nisso.
O governo deu demonstração de eficiência e obstinação e convenceu-se do acerto de ter evitado a idéia do plebiscito. É sempre mais seguro lidar com o fisiologismo dos partidos, cujos processos já estão mapeados e raramente oferecem surpresa. Tudo é questão de preço. As negociações são muitas vezes penosas e arrastadas. Em outras ocasiões são bruscamente interrompidas, dando a impressão de que houve ruptura, mas, a seguir, recomeçam, como se nada houvesse acontecido. Por fim, prevalece o instinto de sobrevivência de ambas as partes.
O governo venceu
a primeira
batalha, mas a
guerra não acabou
É essa a lógica do fisiologismo. As relações do governo com sua base partidária, ressalvadas as exceções de praxe, não se regem por idéias ou ideais. É um jogo pragmático, calculista, baseado na troca de favores. As expansões emocionais exibidas na convenção peemedebista integram a coreografia do processo. O governo venceu a primeira batalha, mas a guerra não acabou. É bem verdade que a vitória o coloca em posição extremamente vantajosa para os demais capítulos dessa novela. É improvável que haja surpresas nas demais votações, mas até lá a corda permanece esticada e as negociações não cessam.
A vitória de anteontem, ao contrário do que possa parecer, não define previamente a eleição da mesa da Câmara. Cada votação tem sua própria história, custo e interesses. A Câmara cedeu na reeleição, mas pode dar o troco e esfriar a euforia palaciana derrotando seu candidato Michel Temer. Era essa, ao menos, a conversa nos bastidores do baixo clero, no dia seguinte à aprovação da emenda.





