Brasília / Ruy Fabiano
O governo examinou a hipótese de um gesto de audácia no curso das negociações em torno da reeleição. A audácia consistiria em interromper as tratativas com o PMDB e convocar um plebiscito, que retiraria do Congresso o centro de decisão nessa matéria.
Não faltam estímulos, inclusive por parte da mídia, para que tal ocorra. Pesquisas de opinião - ontem foi publicada uma, pelo Correiro Braziliense - demonstram que há lastro popular para a proposta. O governo, no entanto, não ousa ousar. Sente-se mais seguro na queda de braço com o Congresso. Prefere resolver o assunto no tapetão.
A convocação do plebiscito, além dos desafios de administrá-lo - e da taxa de imponderabilidade que sempre convive com as consultas populares -, aprofunda ressentimentos na área parlamentar. Convocar o plebiscito como reprimenda ao Congresso é um gesto de hostilidade política que não ficará sem troco.
O governo, para dar curso a seu programa de reformas, ainda depende de numerosas negociações futuras com o Congresso. Eu não ajudo as dificuldades, costuma dizer o presidente. O plebiscito é uma carta na manga, a ser utilizada em situação extrema. Ele ainda não identifica nas dificuldades atuais esse tom terminal. Independentemente do resultado da votação de ontem (que o horário de fechamento desta coluna não permitiu acompanhar), há ainda muito jogo pela frente.
O que está em curso é a lógica clássica do fisiologismo, de criar dificuldades para vender facilidades. É disso que o processo político baseado em interesses clientelistas se alimenta. Não há como lidar com um quadro partidário como o brasileiro em outras bases. Para mudar o que aí está, há duas alternativas: 1) fechar o Congresso e restabelecer a ditadura; 2) promover reforma política ampla, baseada no estabelecimento do princípio da fidelidade partidária.
O que está em
curso é a lógica
clássica do
fisiologismo
A primeira alternativa já foi posta em prática algumas vezes e não funcionou. Muito pelo contrário, acabou tornando o processo político ainda mais espúrio e disfuncional. Está, pois, fora de foco. A segunda, recomendada numerosas vezes pelo vice Marco Marciel, perdeu seu momento mais oportuno - o início do governo.
Maciel dizia que a reeleição deveria constar de um amplo pacote de reformas políticas. Votada isoladamente seria problemática. Não deu outra. O tal pacote deveria ter sido apresentado no primeiro semestre do mandato de Fernando Henrique. Por tradição, o Congresso não nega nada a um presidente recém-eleito. A Collor, por exemplo, concedeu até o confisco do dinheiro da polulação.
A Fernando Henrique, eleito em condições bem mais expressivas que Collor, não negaria a reforma política. Perdeu-se, porém, o timing e não adianta chorar o leite derramado. O que resta é uma base política eclética e unida por meio de interesses clientelistas, que, em sua maioria, só entende a linguagem objetiva do toma-lá-dá-cá. O presidente só tem duas alternativas: ou desiste ou adere. Adivinhem o que ele está preferindo fazer.





