Brasília / Ruy Fabiano
Em que pesem os esforços de Leonel Brizola, a saída do governador do Paraná, Jaime Lerner, do PDT, parece inevitável. Lerner, que até há pouco constituía a esperança derradeira de sobrevivência político-eleitoral dos pedetistas, está com um pé no PSDB.
Há, em tudo, a mão irônica do destino. Brizola, no passado recente, foi acusado de hostilizar Lerner, cujo prestígio político o transformara em alternativa eleitoral óbvia do partido à Presidência da República. Brizola, claro, não gostou e tratou de sabotá-lo.
Lerner deu o troco: ignorou a candidatura presidencial de Brizola em 1994. Apoiou Fernando Henrique, aumentando o fosso entre ele e Brizola. Para completar o serviço, a fragorosa derrota eleitoral de Brizola (ficou atrás do próprio Enéas) deixou o PDT órfão. Criado à sombra da personalidade de seu principal líder, o PDT não mais conseguiu encontrar alternativa para o vazio de comando que se estabeleceu desde então. O partido ora se agrega ao PT, ora fala sozinho, ora adere. É uma legenda em busca de comando e assunto, dentro e fora do Congresso.
Lerner é, de longe, sua maior expressão política. É, para dizer o mínimo, alguém em quem, tardiamente, Brizola vê condições potenciais de enfrentar o rolo compressor da candidatura Fernando Henrique. Lerner tem carisma e prestígio e transita com facilidade da direita à esquerda. Tem conceito de bom administrador e não se conhece nenhuma falcatrua em seu currículo. Só que Lerner também não é burro.
Sabe que, apesar de todas as suas credenciais, tem escassíssimas chances de triunfar sobre a candidatura Fernando Henrique, que transita, do ponto de vista doutrinário, por faixas similares às suas. Fernando Henrique, por sua vez, identificou o problema há bem mais tempo, e desde então assedia o governador paranaense para aderir ao tucanato. Quanto a isso, dispõe de acenos bem mais consistentes que os de Brizola. Oferece apoio à reeleição de Lerner.
Trata-se da situação clássica do melhor um pássaro na mão (a reeleição para o governo do Paraná) que dois voando (a Presidência da República). A candidatura presidencial de Lerner, nos termos em que Brizola a concebe neste momento, só faria sentido mediante prévia (e sólida) coligação das esquerdas, a partir de um discurso alternativo ao projeto de Fernando Henrique. Não existe essa coligação, nem muito menos esse discurso - e essa é a causa do vazio oposicionista que se estabeleceu desde o impeachment de Fernando Collor.
Fernando Henrique, que migrou da posição ideológica de centro-esquerda para uma coligação centro-conservadora, administra sem dificuldades o colapso doutrinário de seus ex-correligionários. Dá, na verdade, um passeio. Lerner, por sua vez, jamais chegou a ser um militante da esquerda. E está bem mais próximo ideologicamente do discurso reformista do presidente que do socialismo moreno de Brizola. Seu ingresso no PSDB está sendo aguardado com furiosa expectativa.





