O anacronismo dos programas partidários, sobretudo nas oposições, está na base do vazio de idéias na área política. O quadro partidário brasileiro é um imenso Saara mental. Está inteiramente desaparelhado para diagnosticar o que acontece no país e no mundo.
O governo Fernando Henrique é simultaneamente beneficiário e vítima desse processo. Beneficiário porque se dá ao luxo de governar sem adversários, impondo suas idéias sem dificuldades, mesmo quando não são boas, pelo simples fato de que, em alguma medida, as possui. E é também vítima por não dispor do contraponto oposicionista.
O imobilismo oposicionista prende-se à estrutura caduca dos partidos. Númerosos parlamentares já perceberam que o discurso precisa mudar, que os paradigmas são outros, mas são reféns do arcaico. É o caso, por exemplo, de (entre outros) dois deputados petistas, José Genoíno (SP) e Paulo Delgado (MG), que há tempos administraram sua incompatibilidades com a estrutura e a mentalidade de seu partido.
Ambos sabem que o referencial crítico do discurso esquerdista-sindicalista já não corresponde à realidade mutante dos dias de hoje e está longe de fornecer alternativas às perplexidades da classe trabalhadora. Não há, porém, como rompê-lo impunemente. Seriam expelidos.
O grande desafio posto aos governadores de países periféricos, como o Brasil, é encontrar espaços de sobrevivência e prosperidade dentro da globalização. Inútil tentar impedi-la. É indispensável, no entanto, administrá-la, colocá-la dentro de perspectivas que contemplem o interesse nacional. Não é, porém, ação solitária do governo.
O processo de ajuste econômico brasileiro nasceu de fora para dentro, a partir do Consenso de Washington, concebido por organismos financeiros internacionais e governo dos Estados Unidos no final da década passada, para ajustar a América Latina aos interesses do capital internacional. Não é casual que o discurso de posse de Fernando Collor seja, em síntese, exatamente o programa de governo de Fernado Henrique Cardoso. Collor trouxe o discurso, que não era seu, mas não estava equipado, nem moral, nem intelectualmente, para executá-lo.
Coube a Fernando Henrique fazê-lo, mas no curso dessa aplicação surgem paradoxos e desafios que exigem mais que a ação do governo: exigem a adesão da sociedade como um todo. O mais eloquente é o do Mercosul, que, ao atender interesses econômicos e geoestratégicos do sul do continente, desatende os do norte. Os Estados Unidos querem impor a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), uma espécie de pacto do pescoço com a guilhotina (e o pescoço, claro, somos nós).
Esse conflito está apenas no nascedouro e tende a se agravar, em níveis ainda não dimensionados. Qual o papel dos partidos, sobretudo os de oposição, nisso tudo? Até aqui, tais temas sequer entraram na pauta dos debates. O Congresso, neste momento, está a reboque da vida real.

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