O epíteto ‘‘neobobos’’ com que o presidente Fernando Henrique brindou genericamente os adversários de seu governo expressa mais que irritação: expressa frustração com a má qualidade da massa crítica oposicionista. O presidente, quanto a isso, está certo: o discurso oposicionista está bem aquém das expectativas e necessidades.
Não é casual. O discurso é fraco pelo simples fato de que, tanto quanto a maior parte das pessoas, incluindo o próprio governo, a oposição também tem dificuldades em identificar o que de fato acontece. As transformações impostas por estes tempos vertiginosos de globalização desnorteiam até mesmo o presidente.
Há momentos em que não é possível identificar quais os verdadeiros aliados ou adversários. Por exemplo: o maior parceiro comercial do Brasil, os Estados Unidos, é também o maior adversário do Mercosul, prioridade das prioridades do governo em política externa.
Fernando Henrique, em regra tratado como amigo pelo governo norte-americano, está no centro de pressões poderosas para que dê prioridade à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em detrimento do bloco econômico continental independente que se organiza no Mercosul. Essa é uma das causas que deveriam ser postas acima das divergências partidárias e mobilizar o conjunto das forças políticas do País.
Tal, porém, não acontece. A oposição passa ao largo desses paradoxos, concentra-se no varejo da política partidária e, em alguns momentos, parece criticar apenas pela força do hábito. O resultado é que, frequentemente, diz bobagens, que o presidente desmonta, com relativa facilidade, às vezes com bom humor, às vezes irritado.
Mesmo quando acerta, a oposição não aprofunda o que diz e não oferece alternativa. É o caso da crítica à postura neoliberal, que tanto irrita o presidente. O conteúdo de grande parte das ações governamenistas é, de fato, inspirada na doutrina neoliberal, cujo pressuposto é o Estado mínimo e o império das leis do mercado.
Contrapô-las, no entanto, apenas com adjetivos não produz maiores efeitos. Sucessivas pesquisas de opinião mostram que o presidente ainda desfruta de consideráveis vantagens sobre seus oponentes. Se fosse hoje a eleição, estaria reeleito no primeiro turno. Não há contraditório. Quando há, é na base da adrenalina, como as recentes acusações de Brizola, segundo as quais o presidente Fernanando Henrique seria o grande responsável pelo escândalo dos precatórios.
Não há nenhum fio de argumentação, nenhuma base de raciocínio - apenas a acusação raivosa, que se dilui na sua própria inconsistência. O governo Fernando Henrique está longe de ser perfeito. Muito ao contrário: carece de avaliação crítica constante e implacável.
A ausência disso tem gerado diversas anomalias, a maior das quais é a transformação da aliança político-partidária governista numa imensa feira de fisiologismo, que se estabelece a cada vez que uma proposta é apresentada ao Congresso. O neobobismo sai caro para o País.

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