A proposta de reeleição presidencial está produzindo o que parecia impossível: um racha conservador. Até aqui, racha só havia na esquerda, que, segundo o velho refrão, só se unia na cadeia.
Hoje, a diluição do que se convencionou chamar de esquerdas concentra o foco de discussão de idéias à direita. Boas ou más, é de lá que elas estão vindo - e é lá que efervescem os ânimos.
Já não se discutem alternativas ao sistema capitalista, mas o melhor modo de organizá-lo, dotá-lo de instrumentos eficazes na geração de lucro e prosperidade. Globalização, superposição de mercados e redução do papel do Estado são tidos como fatos consumados. O que se discute é a melhor maneira de adequar-se a essa realidade.
A esquerda, aquele setor do pensamento comprometido com a ruptura com o discurso liberal do laissez-faire, em nome de nova concepção de valores, está momentaneamente fora de combate. Não conseguiu emergir dos escombros do Muro de Berlim. Sem adversários à vista, as forças conservadoras, enfim, expõem-se ao duelo interno.
O consenso do establishment em torno de Fernando Henrique está ameaçado. Seu rival chama-se Paulo Salim Maluf. A queixa contra o presidente é quanto à carência do que o deputado Roberto Campos (PPB-RJ) chama de ‘‘dinamismo executivo’’: Campos reconhece e louva a performance verbal do presidente, mas o vê preso a uma camisa-de-força ideológica que atende pelo nome de PSDB. O presidente teria limites para avançar.
Enquanto a conjuntura exigia medidas consensuais para debelar a inflação e arrumar a sujeira mais grossa da economia, não lhe foi difícil agir. Quando, porém, chegou-se à presente etapa, de definição de rumos e de opções mais radicais - por exemplo, a privatização de alguns ícones do nacionalismo, como a Companhia Vale do Rio Doce -, o presidente exibe a vacilação de quem está refém de uma estrutura político-partidária esquizofrênica.

Sem adversários à
vista, as forças
conservadoras expõem-se
ao duelo interno


O economista neoliberal Paulo Rabello de Castro diz que o presidente é ‘‘desagradavelmente lento’’. Campos diz que seu governo parece-se com ‘‘uma UNE de direita, com retórica melhor que ação’’. Fernando Henrique não apenas é refém de uma base política eclética; é refém também da causa de sua própria reeleição. Não pode avançar além de determinada medida, pois corre o risco de perder votos no Congresso. É dentro disso que a candidatura Paulo Maluf passa a exibir atrativos para a classe conservadora. É Roberto Campos que compara: ‘‘O que sobra a Maluf é capacidade executiva, sobejamente demonstrada, além de ser privatista genuíno e não um recém-convertido’’.
Não se menciona o fato de que, não fosse a base política eclética, Fernando Henrique não teria sido eleito. Estivesse Maluf em seu lugar, teria que se submeter a essa circunstância, cuja superação pela ruptura oferece riscos de inviabilização do programa de governo.
O encanto do consenso está rompido e, a menos que desponte à esquerda um nome de efetiva consistência - o que, diga-se, não é visível neste momento -, Fernando Henrique enfrentará adversários no campo onde mais parecia consolidado: o conservador.

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