Brasília - Ruy Fabiano
A candidatura do deputado Michel Temer (PMDB-SP) à presidência da Câmara está na marca do pênalti. Perdeu a confiança palaciana sem, em contrapartida, adquirir confiabilidade junto a parlamentares oposicionistas e dissidentes. Ficou como a gralha da fábula de Monteiro Lobato, que tentou virar pavão e conseguiu apenas ser rejeitada pelos de sua espécie. No fim, não era nada - nem gralha, nem pavão.
Temer tentou incorporar a seu discurso de candidato governista as reivindicações dissidentes. Há aspectos, no entanto, impraticáveis que desafiam leis da Física, sobretudo aquela que diz que dois corpos não podem ocupar simultaneamente o mesmo lugar no espaço.
Como, por exemplo, comprometer-se em lutar contra o uso abusivo de medidas provisórias - meta da dissidência e da oposição parlamentar - e, ao mesmo tempo, servir ao governo, o grande vilão nesse processo? Se prevalecer o sentimento de protesto contra o Executivo, não será Temer ou qualquer outro palaciano o contemplado. A preferência recairá sobre Prisco Viana (PPB-BA) ou Wilson Campos (PSDB-PE). Se prevalecer a negociação, vence um governista (quem, não se sabe).
Diante da situação criada, a candidatura Inocêncio Oliveira (PFL-PE) voltou a fazer sentido. Inocêncio é confiável ao Palácio, muito embora acirre os ânimos dos peemedebistas, que querem o comando das duas Casas - Câmara e Senado. No Senado, até aqui, não há sinais de que o PMDB venha a ceder. Íris Resende é o candidato, contra o governista Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA).
Temer perdeu a
confiança palaciana e
não conquistou
os dissidentes
Trata-se de uma partida de xadrez, em que o que está em jogo não são princípios doutrinários. Disputa-se espaço físico de poder. O PMDB, o maior dos partidos no Congresso, quer fazer prevalecer a tradição segundo a qual cabe à legenda majoritária a presidência de cada Casa. O PFL invoca o caráter majoritário da coalizão que integra para postular o cargo (esse princípio foi aceito quando das eleições anteriores de Inocêncio e de Luís Eduardo à presidência da Câmara).
O governo tentou vencer o impasse colocando um pefelista no Senado (ACM) e um peemedebista na Câmara (Temer). Tudo parecia convenientemente disposto quando a convenção peemedebista virou a mesa e rejeitou a fórmula. O partido sente-se desmerecido na distribuição de cargos dentro do governo, pois, sendo majoritário, está em inferioridade em relação a PFL e PSDB. Com a reeleição, a dobradinha PSDB-PFL deve ser preservada - o vice de Fernando Henrique continuará sendo do PFL, provavelmente o próprio Marco Maciel.
O PMDB quer compensar essa inferioridade assumindo o comando pleno do Legislativo. O governo, claro, não quer que isso aconteça. Tem-lhe sido bem mais simples governar mantendo o Legislativo sob controle, colocando aliados confiáveis em seu comando. O perfil de Luís Eduardo Magalhães é tido como o ideal: obediente e disciplinado. Já o de Sarney (PMDB-AP), presidente do Senado, não agrada. É independente e disputa espaços de prestígio com o presidente da República.





