Brasília - Ruy Fabiano
Os leitores reclamam, por carta e telefone, da mesmice dos temas políticos, há meses centrados no samba de uma nota só da reeleição do presidente da República. A questão é que a pauta política não depende do jornalista. É feita pelos políticos, quase sempre pelo Executivo. Cabe ao jornalista considerá-la - e contextualizá-la.
O que coloca um assunto em evidência não é sua atração intrínseca, mas a importância que tem ou terá diante da realidade objetiva. Nesses termos, a reeleição, alçada ao nível de idéia fixa do presidente da Repúbica, se impõe como tema inevitável - embora chato.
Desde que se decidiu a obtê-la, o governo retirou de cena as demais propostas de sua plataforma política. Nos termos em que rearrumou sua agenda, tornou-se refém do assunto. Enquanto a reeleição não for definida, nenhuma outra reforma acontece.
Se o Congresso rejeitá-la - hipótese que o governo considera altamente improvável -, nada mais acontece. Tem-se então um melancólico vídeo-tape do final do governo Sarney, uma espécie de preâmbulo do nada. Há, portanto, riscos graves embutidos no processo, ainda que vistos como remotos pelas lideranças governistas. Toda batalha cujas alternativas são vencer ou vencer - e é o caso da reeleição, que pode resultar num plebiscito - é perigosa, pois expõe uma das partes (no caso, o governo) a uma condição de extrema vulnerabilidade.
Como se previa, a votação em primeiro turno da emenda, inicialmente marcada para anteontem, foi mais uma vez adiada. Ficou para a próxima terça-feira. Não há garantias de que aconteça. Ganha-se tempo, porém. O governo espera amolecer as resistências do PMDB, já que não estão fundadas em convicções ou princípios, mas em interesses pragmáticos.
A reeleição
se impõe como
tema inevitável
- embora chato
Essa linguagem torna o processo mais flexível, já que retira dele o elemento emocional. Tudo é uma questão de acerto de contas. As descargas de adrenalina, as declarações agressivas, os rompimentos cinematográficos compõem uma coreografia cuidadosamente elaborada, cujo objetivo é estabelecer o cenário e o patamar inicial das negociações.
Se a convenção do PMDB não criasse as dificuldades que criou - mudando a data de votação e condenando, no mérito, a reeleição -, o partido não teria como aspirar a uma melhor posição no remanejamento das forças políticas do governo, que se cogita a partir de agora. Constam das conversas em curso não apenas as eleições para as presidências da Câmara e do Senado, como também a reforma ministerial.
O PMDB quer mais espaço e mais influência. Não vai tê-los se não criar dificuldades, e a melhor oportunidade de fazê-lo é exatamente quando cada um de seus votos torna-se indispensável. Não há nada de novo quanto a isso. É a lógica do processo de coalizão fisiológica em curso. Não há um programa de governo que una os parceiros parlamentares de Fernando Henrique, que estão longe de professar fundamentos doutrinários ou ideológicos. O que está em pauta é o desfrute do poder e o tamanho e a consistência da fatia que cabe a cada qual. Nada mais.





