Brasília - Ruy Fabiano
Há muito de teatral nas declarações e no gestual dos políticos, sobretudo quando o tema em pauta está sob intenso foco da mídia. Diante das câmeras e microfones, nada é intranscedente. Qualquer banalidade ganha contornos de um épico de Homero.
Há dias, uma novela da Globo, O Rei do Gado, transpôs o mundo da ficção e penetrou nas dependências do Senado. No enredo, fora assassinado um senador. Tratava-se de um defensor de causas populares. Dois senadores de carne e osso - Eduardo Suplicy e Benedita da Silva - dispuseram-se a dar foros de veracidade à ficção, participando dos funerais de araque, com declarações candentes em defesa do falecido.
Suplicy exibiu indignação convincente. Cercado de microfones e câmeras, marchava resoluto, como quem se prepara para tirar pessoalmente satistações com os assassinos. Muita gente deve estar achando que o tal senador existiu de fato. O senador Darcy Ribeiro (PDT-RJ), por exemplo, contribuiu para aumentar a confusão: publicou um artigo num jornal paulista tecendo loas ao seu colega imaginário, senador Caxias (era esse o nome do personagem), considerando-o um exemplo aos brasileiros e coisas do gênero. Um espanto.
Tão ou mais teatrais - e igualmente fictícias - têm sido os debates em torno da reeleição. A presente balbúrdia em torno do tema foi deflagrada pela convenção do PMDB, há duas semanas, a partir da aprovação de duas moções contrárias ao governo: uma adiava a data de votação da emenda de reeleição, outra condenava-a no mérito.
O primeiro ato da peça, encenado pela cúpula do partido logo após as votações das moções, consistia em sugerir ao público duas coisas no mínimo inverossímeis: 1) que ninguém da direção do partido esperava que aquilo (a rebeldia dos convencionais) fosse acontecer; 2) que as duas votações eram apenas recomendações, não decisões fechadas. A partir daí, começavam as negociações/encenações.
O enredo da
reeleição é caríssimo
e vai ser pago
pelo contribuinte
O presidente da República vem a público reclamar com as lideranças peemedebistas - entre as quais o presidente do Senado, José Sarney - a quebra do compromisso. Sarney, ofendido, reage e ameaça romper. Dias depois, sua filha Roseana, governadora do Maranhão - e beneficiária potencial da reeleição -, desembarca em Brasília, com a missão, recebida diretamente das mãos do presidente Fernando Henrique, de pacificar o pai e restabelecer o entendimento com o governo.
A governadora faz cara séria, compungida, diante de câmeras e microfones, semelhante à da senadora Benedita da Silva no enterro do imaginário senador Caxias, prometendo resgatar o pai. A pátria está salva. Após gritos, excitações, descargas abundantes de adrenalina, chega-se a um entendimento com o PMDB. O primeiro turno da votação da emenda fica para o dia 28 (como queria o governo) e o segundo para depois do carnaval (como recomendava a convenção do PMDB). Um enredo caríssimo, a ser pago, claro, pelo contribuinte.





