Brasília - Ruy Fabiano
O governo pode até chegar à convocação de um plebiscito para definir a reeleição, mas só vai fazê-lo como medida extrema, alternativa ao chamado impasse total nas negociações. Dentro do que aí está, prefere mil vezes lidar com o fisiologismo do PMDB, cuja lógica conhece e de certa forma domina, que com o imponderável das urnas.
Plebiscito, como diz o ex-governador Orestes Quércia - a cuja influência se deve parte da rebeldia peemedebista -, não é mera pesquisa: é campanha eleitoral, com palanque, adversários aglutinados e horário gratuito na televisão e no rádio. É, portanto, uma janela aberta ao desconhecido.
O governo desfruta hoje de situação singular: não tem oposição. Os que aí se colocam estão desarticulados e desmotivados. O plebiscito cuidará de uni-los e dar-lhes discurso e ação uniformes. Não convém ao governo, embora convenha ao país - uma equação, aliás, bastante comum em política.
Toda a controvérsia que o governo enfrenta neste momento decorre do ecletismo de sua base política, que não se estruturou em torno de idéias, mas de interesses meramente fisiológicos. Sua base reúne cinco partidos: PSDB, PFL, PPB, PMDB e PTB. Deles, apenas PMDB e PPB não participaram da coligação eleitoral que elegeu Fernando Henrique. Concorreram com candidato próprio - o PMDB com Quércia e o PPB com Esperidião Amin. Isso os distingue dentro do consórcio do poder.
Agregando-se ao governo após a posse, o PMDB ficou com fatia de poder desproporcional a seu tamanho. PSDB e PFL, que possuem bancadas menos numerosas na Câmara e Senado, têm a seu favor a circunstância de deter, respectivamente, a titularidade do presidente e do vice-presidente da República. Dão, pois, as cartas.
E é aí que está o nó da questão: o PMDB não cede na eleição para a presidência do Senado, em que o governo quer entronizar o pefelista Antonio Carlos Magalhães, porque alega que a chapa presidencial para 98 repetirá a dobradinha PSDB-PFL, o que vai mantê-lo (a ele, PMDB) na periferia do poder, ocupando ministérios secundários. Precisa, pois, garantir pelo menos o comando do Congresso, onde é majoritário.
O governo desfruta
hoje de situação
singular: não
tem oposição
Esse discurso, hoje, não encontra contestação no PMDB, e é o centro do impasse em torno da votação da emenda da reeleição. O governo quer votá-la já, dissociando-a da eleição das mesas diretoras de Câmara e Senado. Aprovando agora a emenda, estará fortalecido para definir a seu gosto a eleição das mesas.
Ficando a votação da emenda para depois, o quadro se inverte e o governo terá que administrar as frustrações dos derrotados, já que a disputa acontece dentro de sua base. Nenhum oposicionista concorre na Câmara e Senado. Com os aliados que tem, o governo definitivamente não precisa de oposição.





