Brasília - Ruy Fabiano
Nada como uma eleição pela frente para embolar o meio de campo da política. A perspectiva de uma urna desfaz alianças, aproxima adversários, sela pactos inacreditáveis, desestabiliza governos, vira pelo avesso o metabolismo institucional do país. Entra-se, políticamente falando, no império do imponderável.
Ao garantir a aprovação da reeleição, o presidente Fernando Henrique precipitou o processo sucessório e fez com que seu governo mergulhasse com perigosa antecedência nessa zona de sombras e turbulência em que todo governo mergulha quando chega a hora de discutir quem o sucederá. Mais ainda quando se trata de ele próprio se suceder.
O governo Fernando Henrique é particularmente complexo em matéria de alianças. Não há entre seus aliados vínculos doutrinários ou programáticos. Trata-se de uma aliança não formalizada, em que a maior parte de seus integrantes embarcou tendo em vista o usufruto do poder.
Em regimes partidários regidos pelo instituto da fidelidade, as alianças dão-se em torno de metas específicas, que são subscritas formalmente e, em caso de descumprimento, cobra-se na Justiça a falta. O parlamentar faltoso pode, em tese, perder o mandato. No caso brasileiro, não há nada disso. Ninguém está obrigado a coisa alguma, nem mesmo o partido do presidente.
Não é casual que, neste momento, seja exatamente o partido do presidente, o PSDB, quem lhe nega apoio, enquanto o partido agregado, o PFL, protesta, exigindo lealdade. O PMDB, à distância, acompanha o barulho. Se o presidente não conseguir contornar a situação e mostrar-se fraco, quem sabe é hora de os peemedebistas desistirem do negócio e partirem em busca de candidatura própria?
Orestes Quércia joga nessa hipótese. Recebe de braços abertos antigos adversários e avalia se vale a pena enfrentar Fernando Henrique ou tentar novo vôo ao governo de São Paulo. O PSDB vira as costas ao presidente em protesto a seu encontro com Paulo Maluf, receoso de que ambos tenham selado acordo de neutralidade na campanha eleitoral paulista. Se firmaram, quem deveria estar mais preocupado é Maluf, pois as chances de o acordo ser cumprido são remotíssimas.
Maluf, porém, não é o único calo político de Fernando Henrique. Há outro, mais problemático, chamado Itamar Franco. Também ele detona enormes turbulências suprapartidárias. Neutralizá-lo implica mexer com quem está quieto: o governador de Minas, Eduardo Azeredo, candidato à reeleição.
Itamar ameaça candidatar-se à presidência. Pode não se eleger, mas produz estragos (ou pelo menos transmite esse temor ao presidente) à reeleição. Itamar toparia disputar o governo de Minas, se Fernando Henrique o apoiasse. Isso, porém, significa abandonar Azeredo. É como em São Paulo: neutralidade equivale a abandonar Mário Covas, hipótese que está na origem da presente rebelião dos tucanos.
Em suma, o presidente está diante do nó político que ele mesmo arquitetou, ao colocar em cena a reeleição, em meio a uma política de alianças excêntrica e inadministrável.





