Brasília - Ruy Fabiano
Há óbices políticos intransponíveis entre Paulo Maluf e Fernando Henrique Cardoso, por mais disposição que haja entre ambos para firmar acordos. Boa vontade recíproca não falta.
Faltam condições políticas objetivas. Fernando Henrique já manifestou mais de uma vez desejo de livrar-se do incômodo que lhe representa uma eventual candidatura Paulo Maluf à presidência.
E Maluf sonha com a neutralidade de Fernando Henrique na disputa pelo governo de São Paulo ano que vem. Se o acordo dependesse apenas de ambos, já estava selado há muito tempo. Mas não depende. Da parte de Maluf, não há maiores dificuldades. Caber-lhe-ia renunciar a uma eventual candidatura presidencial e apoiar a de FHC.
Faria isso com o maior entusiasmo e dificilmente encontraria resistência de peso em seu partido. Da parte de Fernando Henrique, no entanto, a situação é bem diferente. A base do PSDB em São Paulo é o reduto eleitoral do presidente e ali não se admite nem remotamente a palavra neutralidade: ou veste a camisa do partido ou simplesmente o implode e perde os seus colaboradores mais próximos, como José Serra, Sérgio Motta e Mário Covas - principalmente Mário Covas.
Poucos se dão conta do peso e da autoridade de Mário Covas dentro de PSDB. O governador de São Paulo foi sempre o verdadeiro chefe do partido, acima mesmo de Fernando Henrique. Não fosse o acidente de percurso chamado Plano Real, que guindou Fernando Henrique à categoria de líder político popular e nacional, o candidato do partido à Presidência da República em 1994 seria provavelmente Covas.
No passado recente, coube a Covas barrar tentativas de acordos pessoais de Fernando Henrique, à revelia do partido. Pouco antes da instalação da CPI do PC, que resultou no impeachment de Fernando Collor, Fernando Henrique empenhava-se em viabilizar em seu partido convite recebido para assumir o ministério que quisesse no governo federal. Não o conseguiu porque Covas não deixou.
Os tucanos que decidiram aceitar o convite - caso de Hélio Jaguaribe, Sérgio Rouanet e Celso Lafer - inviabilizaram-se politicamente após o impeachment. Covas acabou prestando um serviço involuntário a Fernando Henrique. Se este tivesse assumido alguma posição no governo Collor - e se assumisse seria seguramente uma posição de destaque -, jamais chegaria à presidência da República. Encerraria ali, desgastado, sua carreira política e voltaria a lecionar na USP.
A tentativa de acordo com Maluf esbarra no PSDB e em Covas, sem falar no PFL. Covas é candidato à reeleição. Em hipótese alguma admitirá um Fernando Henrique neutro. Quer vínculo explícito entre seu nome e o do presidente. Maluf e Fernando Henrique não ignoram isso - e apesar disso negociam. Maluf é alvo de bombardeio na CPI dos Títulos Públicos. Vive momento de exposição negativa. É, em política, ocasião propícia para que ceda, transija, recue. Por aí, dá para entender o interesse de Fernando Henrique em conversar com ele, não obstante os protestos e suspeitas de seu partido e amigos mais próximos.





